Precisamos Falar sobre... Ser Diferente

16:31 C. Vieira 0 Comments

Hoje, eu acordei com uma frase em minha mente. Não é bem algo religioso ou de autoajuda. É mais uma afirmação de empoderamento que qualquer pessoa pode (e deve) fazer. É o seguinte:


"Eu agradeço por quem eu sou ser algo completamente diferente de qualquer pessoa com quem eu cruzar no caminho."


 
Parece, a princípio, um pensamento arrogante. Mas isto ocorre por dois motivos. Primeiro, porque somos condicionadas/os a concluir que ser 'diferente' é para pessoas que se acham superiores aos demais. E, segundo, porque culturalmente, somos educadas/os para não sermos, no caso, diferentes.

O pensamento de homogeinização (palavra difícil, não?) é próprio de uma sociedade que desvaloriza as características pessoas dos seres humanos. É desse pensamento que, na verdade, nascem os preconceitos de todas as espécies: O machismo por desvalorizar o "ser mulher", o racismo por desvalorizar o não-ser-branco, a homofobia/transfobia/lesbofobia por desvalorizar o não-ser-heterossexual ou não aceitar sua condição de gênero de nascimento - dentre muitos outros -, o preconceito social por não-ser-rico ou não morar em bairro "nobre", e eu poderia continuar a lista, mas estes são os mais explícitos.

Sei que já escreveram tratados sobre o assunto do "outro", aquela e aquele que não sou eu, e ainda assim nos mantemos seguindo a mesma linha sobre quem ou o que é diferente de nós: não aceitamos!

Mas eu não quero falar sobre o outro. Se ela/e se aceita como o é, que ótimo! Mas e nós mesmos, nos aceitamos? Aceitamos o fato de que, exatamente como o outro, nós também somos diferentes? Será que fazemos o possível para não nos enxergarmos assim (exatamente por medo de sermos julgados como julgamos o outro, que difere de nós)? Será que vivemos realmente satisfeitos por não sentirmos nossa personalização valorizada em algo que dizemos ou fazemos? Será que não utilizamos de frases feitas (aquelas que um determinado grupo repete exaustivamente) exatamente para que não percebam que somos diferentes de todos à nossa volta? Será que vale a pena seguir a "manada"?...




E, se não é fácil pensar nestas perguntas, imagine então, dar uma resposta a cada uma. Por isto, este pequeno texto...

Eu penso demais. Sobre tudo, sobre todos. Sobre o Universo e tudo mais. E sempre entendi/aprendi que pensar demais era sinal de loucura. Eu não deveria fazê-lo. Mas isto não deixou de acontecer por eu não expor para as pessoas meus pensamentos. Eles continuaram vindo. Ou seja, é parte de quem eu sou. É minha personalidade mostrando-se. Então, por que ela é errada? Por que 
supostamente ser quem eu sou deveria ser considerado algo errado?

Porque encarar o mundo, se assumindo como alguém diferente é, ao mesmo tempo, algo corajoso e extremamente assustador.

É quando você decide que não vai
mais alisar os cabelos, e passa a exibir seus cachos ou crespos naturais com orgulho. Ou quando você explica aos amigos que sua posição é contrária a deles em um determinado assunto e eles podem escolher manter ou não a amizade com você. Ou (e esta é uma decisão das mais corajosas e válidas) quando uma menina ou garoto conta para a família que gosta de meninas ou de meninos (ou dos dois), e espera que a/o aceitem como é.

Em suma, não é fácil sermos nós mesmos em um mundo que não quer que sejamos diferentes do que esperam de nós. Este pensamento vem e vai em minha mente porque meus sonhos e desejos jamais "bateram" com o que queriam de mim. Nada radicalmente difícil, mas a profissão nunca foi a que meus pais queriam. O rapaz com quem resolvi me relacionar não era o esperado. E, mais importante ainda, minha personalidade era o extremo oposto do que desejavam.

 

É como uma entrevista de empregos que a Sociedade, como um todo, faz com cada uma/um de nós. Existem os pré-requisitos e você tem de escolher: se adequar a eles pelo resto de sua vida, ou oferecer o que de melhor você tem (você mesma/o) e "aguentar as consequências" de uma provável rejeição.

Mas por que a rejeição ocorre?

Porque é raro alguém viver uma vida real. Se alguém decide ser quem é e viver tudo o que pode dentro disso sem querer cria inveja em quem não consegue aceitar ser diferente. Aquela história de esqueletos no armário existe, e ocorre dentro de todas/os nós. São nossos sonhos, nossos desejos, nossas aspirações e certezas sobre quem somos que permanecem (até perderem a "carne"), ocultos nos nossos armários interiores esperando o dia em que abriremos as portas e os mostraremos a todos.

Infelizmente, tudo, então, acaba sendo uma questão de coragem.

A primeira vez que, na adolescência, vi uma menina jogar futebol, fiquei horrorizada (ah, sim, estou assumindo que já fui preconceituosa!). E, ao mesmo tempo, me senti cheia de orgulho e inveja pela coragem dela. Ela, no fundo, me fez sentir bem pela coragem de fazer algo que, na época, na escola, ainda não se aceitava. E que eu não teria a coragem para fazer.

Parece uma coisa boba contar isto nos dias de hoje, mas o que penso é que para se tornar algo quase comum (o preconceito ainda permanece, porém, a luta contra ele está cada vez mais forte), foi preciso que alguém tivesse a coragem de "sair do armário" e se mostrar como quem é e a que veio. 

Por isto, a Coragem! É preciso tê-la para enfrentar um mundo que não nos quer como somos. Quantas pessoas são médic@s, advogad@s ou qualquer outra profissão porque a família, as/os amigas/os, todos às sua volta valorizavam e pressionavam para seguir este caminho? Quant@s músic@s, arqueólog@s, pintor@s, historiador@s, escritor@s, padeir@s, escultor@s, professor@s, filósof@s, designers gráficos, atletas, chefs culinári@s, cineastas, cabeleireir@s promissores estão atuando em áreas que nada tem a ver com seus sonhos?...

Bem, ontem vi um trecho de um filme chamado 'Amor sem Escalas' em que o ator George Clooney interpreta um profissional em demitir os outros para sua empresa. Ao que parece, ele gosta do que faz e o faz bem (se é que explicar a alguém que ela/ele está demitido possa fazer algum bem a alguém!). Mas quando ele vai expor qual o benefício da demissão, ele pergunta a um dos demitidos (J. K. Simonns, o J. J. Jameson dos primeiros filmes do Homem-Aranha) por que ele acha que as filhas amam os atletas que todo mundo ama. E explica que elas amam os atletas porque eles tem a coragem de lutar por seus sonhos. E, depois de mostrar ao futuro demitido um arquivo onde há a informação de que ele fez um curso superior de culinária, ele (o personagem do Clooney) pergunta porque este (o demitido) não seguiu o sonho de ser um grande chef e que aquela demissão era a oportunidade de sua vida para ele dar orgulho às filhas, fazem o que sempre sonhou. Deixo aqui para quem quiser assistir.

Sinceramente, eu sei que o personagem do George Clooney estava querendo suavizar o impacto que a demissão geraria no lado emocional do outro personagem e, para isso, pinçou aquela informação. Mas, se pensarmos bem, muitas vezes esperamos algo de grande impacto acontecer para termos coragem de ir atrás do que queremos para nós. E isto é parcialmente bom, mas, por outro lado, é terrível. Esperar o momento certo para corremos atrás do que queremos?! Esperar um, literalmente, "chute no traseiro" para acordarmos e entendermos o que estamos fazendo de nossas vidas (e o que os outros também fazem dela)?!

É preciso coragem para viver e somos uma sociedade que vive e se mantém por meio do medo: "Não siga seus sonhos pois o risco será grande, faça apenas o necessário!", "Seja uma pessoa acomodada pois não terá nenhuma chance de sofrer rejeição/decepção/humilhação!", "Seja uma pessoa frustrada e infeliz, pois é melhor um pássaro na mão do que dois voando!", "Fique onde está e assim ninguém estará contra você!".

E por aí vamos, sentados em nossas salas, cozinhas, quartos, mesas de trabalho, de um bar qualquer, rodeadas/os de outras pessoas que nem sempre seguem seus próprios sonhos, mas unindo-se numa corrente forte de inveja e desprezo por aquela pessoa que, até mesmo na aparência, rompeu com o acordo mudo de esconder bem fundo quem realmente era.


Preste atenção! Eu conheço um homem que fala de música o tempo todo, mas trabalha na área de finanças. Não tem coragem de aprender a tocar violão, mas sempre que encontra um "dando mole", arrisca timidamente a dedilhá-lo. Está fazendo sua segunda faculdade em Economia, mas dá todos os sinais de que uma guitarra o faria a pessoa mais feliz do mundo. É alguém que tem tudo o que muitas pessoas apenas sonham conseguir (carro, casa, situação financeira boa...) mas não houve uma vez em que esbarrei nele em que não reclamava de algo. Do chefe, do professor da faculdade, do motorista que ele fechou numa curva (porque dirige sem um pingo de paciência), do resto da humanidade, de si mesmo... Porém, ele jamais pára para olhar para si e perceber que a insatisfação que sente é pelo caminho que comodamente está seguindo. Ele se tornou a infelicidade em pessoa. Com o tempo, mostrou-se (se já não o fosse antes, na verdade) um ser preconceituoso, que destila veneno em pequenas doses sobre todos à sua volta. Em suma, apenas um chute no traseiro talvez o fizesse acordar e correr atrás de seus sonhos. Abrir o armário e expor os ossos que restam deles.


E eis o problema, ele espera que alguém o ajude a se encontrar. Quando, na verdade, ele apenas tem que sair de onde está e, sem medo, encarar o mundo mostrando quem é.

Por isso, a importância de ser diferente


Não é para sair por aí fazendo besteira. Não! 

É para não mais se ocultar, sendo única/único neste gigantesco planeta em um Universo ainda mais vasto. 

A vida é muito curta para não ser nada melhor do que si mesma/o. Ou, pior, seguir por um caminho que não seja aquele que o seu coração pede.



Por isso, não tente ser normal, não tente ser comum, não tente fazer parte da mesmice. Albert Einstein disse uma vez que grandes almas sempre encontram forte oposição de mentes medíocres. E, se este é o preço para não fazer parte de uma rebanho que ilude-se com menos do que é capaz, que seja!



Ser diferente é bom. Por isso, não tente se adequar. Nunca tente ser menos do que você é. Quando alguém lhe disser que você é diferente, sorria, levante a cabeça e orgulhe-se.

O importante é se aceitar, em primeiro lugar. E, depois, dar de ombros para o mundo. 

E para terminar, um videozinho sobre uma menina que sente orgulho de ser diferente. Atenção, isto é apenas para mostrar como ser diferente pode ser inspirador, mas nada de levar ao pé da letra, meninas e meninos!


Até mais! 

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