A Caderneta Vermelha: Entre Anotações e a Nostalgia do Possível


AVISO: Estas notas contêm spoilers do livro!

Isto não é uma resenha!
Ou talvez também o seja.
Mas é mais as notas que sempre gosto de criar enquanto leio um livro.

Enfim, bon appétit!

1. Gostei do gato da menina! Gostei do NOME do gato! Então tive de pesquisar enquanto lia. A raça chama-se Maine Coon e achei impressionante o tamanho do "bichinho".

2. Um dos personagens possui uma livraria e, para mim, isto é uma característica positiva para uma pessoa. É claro que não é uma imediata qualidade, mas ter acesso a tantos livros muda a vida de uma pessoa. Já se ela mudará o mundo usando isto, é uma outra história.

3. A citação de obras e autores encaixou bem nesta narrativa. A vontade que fica é de ler cada um dos livros reais cujos títulos são apresentados. Ou sondar, buscando saber mais sobre as obras dos autores que o personagem livreiro apresenta.

4. Uma coisa que sempre acontece em romances: o personagem principal, um deles, não explica quem realmente é e se mete em encrenca.

5. Então, um personagem supostamente elogia o outro dizendo, "Você parece ser um 'homem de bem'", e é automática a ojeriza ao "elogio". rs

6. O que é a realidade?, me lembra de uma jovem em um livro não terminado de ser escrito que indagou, "O que é real?"

Alguém sabe?

7. A NOSTALGIA DO POSSÍVEL persegue a todos os seres racionais e se mantém como um amigo que sempre nos recorda daquele 'e se', daquela curva, daquela esquina da vida que não dobramos por vários motivos. Responsabilidades, inseguranças, resignações, raiva, medo...

8. Eu achei muito estranho a reação da personagem feminina após o momento traumático de ser assaltada, agredida e ficar em coma. Ela voltou alguns dias depois à sua rotina diária sem qualquer alteração, medo ou inseguranças que perpassam qualquer vítima de uma tentativa de latrocínio. Foi realmente surreal e acredito que o autor foi infeliz em não ter trabalhado melhor este pós-trauma.

E este foi meu único e incomodo 'exceto' neste pequeno livro.

9. É interessante que no final, um personagem venha a agir quase como o outro, em uma "caça ao tesouro" que encerra o ciclo. O livro infelizmente é muito pequeno. Acredito que ele poderia ser mais robusto pois tinha capacidade para tal.

Há muitas obras, incluindo nisto algumas que li, que se tivessem cem páginas seriam o suficiente, pois o nível de tergiversação, com os autores lutando para estender um enredo fraco e insípido, é insuportável.

Mas 'A Caderneta Vermelha' demonstrou que é possível amarrar bem uma pequena história. O livreiro é um personagem verossímil e encantador em suas reflexões e conceitos filosóficos, morais e éticos. Suas dúvidas sobre vida e morte são realmente relevantes, e dificilmente alguém, na idade adulta, não se viu diante dos mesmos questionamentos que ele se faz.

E o restante dos personagens são bons. Poderia ter mais informações sobre eles. Mesmo a personagem feminina que é o tema da primeira "caçada". Ela parece merecer que fosse mais explicitada a sua história e suas ações, para além da caderneta vermelha.

Foi um prazer ler este livro! Ele é bem curto, mas possui qualidade e enredo que prendem quem o lê até a última página.

P.S.: O gato preto é um show à parte!

Olhos D'Água: Notas sobre um Mar de Lágrimas

AVISO: Estas resenha contém spoilers do livro.

Eu nunca havia lido um livro tão pequeno e tão doloroso. Pelo título, Olhos D'Água, eu imaginei que seria sobre a luta e o sofrimento de todo um povo que sobrevive a duras penas neste grande pedaço do território americano, chamado Brasil. Mas é uma dor "instrutiva" a que o livro mostra. Um pouco parecida com um tapa na cara, que dói mas que nos deixa alerta para a realidade à nossa volta.

Há pessoas morrendo, há pessoas morrendo por nada, e há pessoas morrendo pelo nada que se constitui a cultura da exclusão. Os personagens deste livro tem pouco ou nenhum acesso ao que lhes daria, no mínimo, a dignidade de existirem. Eles vivem pelas migalhas de um sistema cruel, que mata e submete até o ponto da insânia de se tomar veneno para se sentir no controle do próprio destino.

A Morte é quem governa estas vidas, nunca a própria Vida. E a cada conto, pode-se perguntar porque é tão difícil ler, como se fosse conosco que acontecesse, o que cada personagem vivencia; que é similar a realidade de alguém que pode estar sentado ao nosso lado, passando pela rua ou sendo deixada/o para trás por nossos passos apressados pela cidade.

Dói quando lemos, porque gera empatia, e ao mesmo tempo, vergonha.

Primeiro a vergonha, porque sempre soubemos que a vida era/é dura para pessoas pobres, pessoas negras, pessoas periféricas. Mas nunca realmente calçamos seus sapatos, ou caminhamos sobre a falta deles, para compreender o inferno que eles vivem a cada dia, a cada hora, a cada minuto.
E segundo, a empatia, que é algo intrínseco ao ser humano. Existe uma luta terrível para que não sejamos empáticos com outras pessoas. A insensibilidade virou sinônimo de força e sucesso. Por isso, é associada a pessoas ricas, que preferem que o abismo entre elas e as mais pobres, ou apenas pobres, se mantenha e se alargue cada vez mais. Porque elas sabem o quanto DÓI sentir EMPATIA. É voltar a ser humano, frágil, vulnerável, como, na verdade, sempre fomos.

Nossos "heróis" míticos são seres superpoderosos, indestrutíveis e quase imortais. Ser, ao contrário disso, apenas um ser humano é ser o oposto da vida imortal e é algo que não combina com nossos desejos de eternidade. Porque sabemos que vamos morrer. Um dia.
E como queremos ludibriar a morte, fugimos da empatia, que nos lembra que a dor existe. Que ela, a Dor, é Vida. Mas também tem prazo de validade. E este livro nos mostra a fragilidade, a vulnerabilidade e a finitude da Vida.

Eu preferia que não fosse um livro tão doloroso, a única palavra para descrevê-lo corretamente e que precisa ser repetida, mas é um mar de lágrimas que nos afoga a cada conto, a cada esquina que se dobra nesta leitura. É para sofrer com a mulher que teve muitos filhos mas quis apenas o último, mesmo sendo um filho de um estupro. Ou a que só deseja que os filhos provem um melão, mas que jamais volta para casa, para eles. Ou a que sonha com um futuro possível longe do marido que a oprime. Ou o rapaz de apenas quinze anos que podia estar em casa mas que acorda com dor de dente, deitado em uma calçada qualquer do mundo.

São muitas as formas de sofrer mostradas neste livro. Todas terríveis. Todas 'dolorosas' como a espetada de um punhal. Mas todas necessárias para enxergarmos o mundo como ele realmente é.

Mas, ainda assim, há um placebo. Na verdade, mais do que apenas um calmante, uma lufada de luz, que é a poesia de Conceição Evaristo. E não se sabe se lemos narrativas ou poemas de dor, porque a autora consegue tecer esta colcha perfeita e nos leva a brincar entre os lábios com suas palavras dispostas "no varal que é a linha" escrita.

Eu aplaudo a competência e brilhantismo de Evaristo em conseguir criar uma obra tão delicada e tão forte.

Meus olhos se tornaram d'água depois de lê-lo.

E, sinceramente eu espero que uma Ayolwa esteja, neste momento, apontando-se pelo caminho, para trazer de volta para todos a alegria que nosso povo tanto necessita. Que ninguém mais seja obrigada/o a "combinar de não morrer" e que haja a paz que faça com que menos mães tenham Olhos D'água como característica e legado para suas filhas e filhos.

Precisamos falar sobre... Ética!

Há muito tempo, eu percebi o quanto seria importante este tema em minha vida. A ética é intrínseca a uma existência saudável, não apenas para si mesma mas também para as pessoas ao nosso redor.

E sinceramente, eu acredito que, desde a tenra idade, deveríamos ter contato com os estudos relacionados a ética. Porque ética é a liberdade de sermos quem somos, de agirmos com consciência (ética) acerca do que é bom e do que é mau, mas também de aceitar que outrem o sejam e o façam. Ainda que não seja exatamente como eu quero mas que esteja eticamente norteado para o Bem. Ou seja, pressupõe respeito pois nos leva a escolher sempre o que é melhor e correto não apenas para nós, mas para todos.

Por isso, apesar de ter trabalhado com o tema na época da graduação, percebi que estava um pouco enferrujada para discutir sobre. E nestes tempos atuais, em que vemos a moral religiosa ou a do dinheiro sendo as únicas utilizadas para balizar os comportamentos (e por conta disso, cerceando e limitando a liberdade de quem não concorda), percebo que, mais do que nunca, precisamos falar sobre Ética.

Assim, decidi trazer algumas resenhas de livros que li sobre o assunto para auxiliar a mim em minhas reflexões e atitudes - pois ética é sobre ação mais do que apenas abstração.
O livro em cheque é 'O que é Ética' de Álvaro L. M. Valls. Como todo bom livro sobre filosofia, este também se inicia falando sobre os filósofos gregos, que, para o mundo ocidental são o repositório máximo do conhecimento neste campo. Bem, sobre o que Valls nos apresenta, estas são as notas da leitura que fiz:



Primeiramente, o que seria Ética. Segundo Álvari Valls, "A ética é daquelas coisas qua todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta. Tradicionalmente ela é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento."


Porém, em meu entendimento, Ética trata da liberdade consciente de agir.


Mas vamos a um resumo de pontos do livro sobre ética e sua História desde a Antiguidade:

1) Segundo Valls, os gregos viveram a mais ou menos 2 mil e 500 anos em sua hélade grega (e ele está certo). Porém, não advêm deste período os registros sobre conduta moral mais antigos, porque o Código de Hamurábi existe desde de o século XVIII a.C. E é o código de normatização de comportamento e de ética mais antigo de que se tem registro.

Por meio desta lei da Mesopotâmia, pode-se perceber a necessidade das normas. Bem como, apesar de não existirem registros anteriores a ele, ter uma base de estudo sobre ética a respeito de um período muito anterior ao dos gregos; que, por sinal, beberam de todo o conhecimento sobre ética do Oriente próximo ao Mediterrâneo e da África mediterrânea.

2) O livro trata da ética sempre sob os registros antigos do Ocidente, focando em Grécia e no Império Romano mas sem a percepção de em quê estes povos antigos (mas não tanto) se basearam.

Como Lavoisier disse: "Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". Ora, se o código de Hamurábi foi baseado na lei de talião e, por sua vez a lei dos hebreus do Deuteronômio foi baseada no de Hamurábi, pode-se precisar que a filosofia e a ética das leis grega e romana beberam, e muito, nas leis não-ocidentais.

3) A norma ética da Idade Média e especificamente deste período NA Europa é utilizada como um passo além no fluxo da filosofia da ética, de acordo com o autor. Contudo, novamente, as palavras do autor são contraditórias porque ele mesmo diz que "não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria, de um povo a outro."

Enquanto na Europa a ética era normatizada pelos dogmas judaico-cristãos do Catolicismo, em outros locais era regida por leis específicas e distintas da primeira. Assim, o livro deveria começar com um prefácio explicando este foco e demonstrando que o estudo do campo da ética AINDA encontra-se em expansão pois não abarca todos "os costumes que variam, (...) os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria, de um povo a outro."

4) "O dever obriga moralmente a consciência moral livre, e a vontade verdadeiramente boa deve agir sempre conforme o dever e por respeito ao dever." A liberdade viria, então, de um senso do fazer o que é correto, porém  apenas surgindo da igualdade entre os seres (livres em si).

A ética estaria acima e para além das leis pois se liga ao pensamento (racional, creio eu) que se forma em uma consciência moral (ética).

5) Ocorre um certo foco da ética ligada apenas a religião ocidental oficial: o judaico-cristã.  O que limita a própria concepção do "o que é ética", pois, apesar de usar de contraponto a religião antiga grega, não vai além disso para falar de ética no Medievo (outro foco reducionista, pois havia florescimento de conhecimento em outras partes do globo terrestre enquanto o continente europeu permanecia focado em penitência e salvação).

6) A moral religiosa foi mais limitadora do que geradora de novas questões que enriquecessem o debate sobre ética. Nisto, acredito, que o livro é um pouco parcial para além do necessário.

7) A citação ao "professor marxista" foi um tanto estranha, visto que o próprio manifesto escrito por Karl Marx vai contra este simplicismo advindo da moral religiosa. Me pareceu pinçado de alguém, no caso o tal professor, com opinião é não argumento válido sobre a questão.

8) Era uma pena que na época em que Álvaro Valls escreveu este livro o trabalho do historiador norte-americano George James ainda não existisse porque ele perceberia que tanto a filosofia grega quanto a moral cristã eram na verdade desdobramento de algo mais antigo.

E para quem interessar, indico o livro: 'Stolen Legacy: The egyptian origins of western philosophy' de George G. M. James.

9) As correntes de pensamentos mais "atuais" que o autor aponta como sendo tendências, na verdade, são as que mais se utilizam hoje para se debater sobre a realidade social atual. Principalmente, a corrente que utiliza o chamado pragmatismo sob o manto do capitalismo.

E neste ponto exato que necessitaria de um capítulo inteiro do livro para mostrar a ética e o que se costuma chamar disso mas que, em um debate sobre, se perceberia que  são argumentos vazios. E este debate, que acredito, faria sentido para a criação desta obra. Pois uniria o conhecimento do passado com os desdobramentos que vemos sobre ética no presente.

10) Um ponto que mostra novamente certa parcialidade, pois não valoriza, o não considera que existem valores éticos, morais advindos de outra culturas - e mesmo do Oriente -, para além dos valores das religiões abraâmicas. E quando o autor explica que "Kierkegaard considerava que uma ética puramente humana, depois do cristianismo, não deixava de ser um retorno ao PAGANISMO, no seio de uma cristandade não mais cristã. A única vantagem que haveria, talvez, para um tal esforço, seria, na perspectiva do homem de fé, a obtenção de uma linguagem comum, aceitável também pelos homens que não possuem a mesma fé. O que, para Kierkegaard, era uma vantagem ainda duvidosa(?)", pode-se indagar:

Uma ética que respeite até mesmo religião não abraâmicas e mesmo o ateísmo seria duvidosa para quem?

Este livro é mais religioso do que marxista, como me disseram que supostamente ele o era.

11) A ética no livro é completamente embasada na visão sobre o assunto sob as obras de pensadores europeus. O que delimita o tema, pois o motivo, por exemplo, de eu aprofundar meu (raso) conhecimento sobre ética, adveio de um livro sobre ética escrito por um monge budista. Provavelmente o tema ética também era caro para outras religiões e povos para além da Europa mesmo na chamada Antiguidade ou no Medieval europeu.

Mas não sabemos como era, porque mesmo os filósofos contemporâneos focam seus estudos apenas sobre os pensadores europeus.

O que é decepcionante.

12) "Assim, hoje em dia, os grandes problemas éticos se encontram nestes três momentos da eticidade (família, sociedade civil e Estado), e uma ética concreta não pode ignorá-los." Valls está corretíssimo em apontar estes três âmbitos.

13) "A liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um Estado livre e de direito. As leis, a Constituição, as declarações de direitos, a definição dos poderes, a divisão destes poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais. Ninguém é livre, numa ditadura; a velha lição de Hegel se confirmou até os nossos dias." Nada mais atual do que este pensamento hegeliana.

Foi uma leitura interessante. Porém, como disse acima, limitadora. No caso, nos primeiros capítulos. Falar sobre ética sem perceber que somos uma sociedade ocidental normatizada por regras que se mantém desde a Idade Média é no minha alienalizante. A ética precisa estar além da religião ou dos costumes de apenas um povo. Porque, ao contrário do que
Kierkegaard pensava, eciste vida pensante para além das religiões. E, mais do que isto, a fé é algo particular. Enquanto a ética deveria ser universal.

Os últimos capítulos deste livro demonstraram um conhecimento brilhante sobre a filosofia e a ética atuais que me fizeram querer aprofundar mais os estudos sobre o tema.

Então, eu recomendo a leitura deste livro pelos capítulos finais. Os outros, vai do conhecimento de cada um sobre História Antiga: se conforme o discurso padrão, porém cheio de lacunas, ou se pela perspectiva dos historiadores atuais que andam rompendo com a História oficial e quebrando paradigmas sobre temas como filosofia.

E não paremos aqui. 

Até a próxima!

Janeiro em Livros

Porque minha Meta de leitura, em 2018, é LER!

Neste novo ano, me prontifiquei a ler pelo prazer, sem estipular limites ambiciosos a ultrapassar e nem competir mentalmente para ler o mesmo número de páginas que bookaholics alucinados.

Mais que quantidade, este ano será um ano da busca pela qualidade da leitura, e da vida.


Janeiro 

Este primeiro mês do ano me surpreendeu. Em geral, eu começo tão devagar que apenas "engreno" em leituras lá para setembro. Mas, incrivelmente, terminei 2017 lendo livros que me empolgaram a continuar. Terminei alguns que estive lendo nos últimos anos, à conta gotas, e encontrei uma pérolas cativante que já faz parte do rol dos meus livros favoritos.

Mas falemos das leituras!


Perfume da Paixão, Jude Deveraux (ebook)

Então, comecei a ler este livro no final de 2017. Li no máximo duas páginas e decidi recomeçá-lo depois das festas de fim de ano. Foi o que fiz, mas a história no me prendeu. Uma sinopse que prometia mas que não passou disso. A história se arrasta, os personagens são chatos e estereotipados e ainda tenho dificuldade em não rir da diferença entre o português do Brasil e o de Portugal. Enfim, a autora tentou criar um romance água-com-açúcar misturados aos de espionagem e mistério. O mistério era chato, o mocinho, tedioso, e a mocinha cansativa. Podia mais, mas depois das dez primeiras páginas, eu decidi ler o livro todo por pura teimosia, porque a história é um desperdício de cérebro e papel, que estariam melhor se tivessem sido mantido como parte das árvores.
Foi uma leitura sofrega e que eu nem em sonho recomendaria.


Nota: 0,3/5


E como recomendaram este novo livro da autora queridinha do romance de banca, Julia Quinn!
Lançamento de 2017, ele parecia romper com a série de livros da família "Von Trapp", do qual, li alguns e apenas agradei de um. Mas voltando ao livro, a sinopse falava de espiões da coroa inglesa, à serviço de sua majestade, que trabalhavam contra colegas de profissão franceses na época das guerras napoleônicas.
Isto para mim, não foi um chamariz; foi quase que hipnose.
Porque eu amo pesquisar sobre a época destas guerras e a influência que teve, direta ou indireta, pelo resto do Globo. Até mesmo o Brasil foi "vítima" destas guerras já que, por conta de uma certa batalha entre ingleses e franceses, a família real portuguesa desabou aqui, em Pindorama. E isto é um fato histórico que um contarei de maneira mais completa.
E, mais uma vez, voltando ao livro, esqueçam de Napoleão Bonaparte, esqueçam tudo o que já leram/assistiram sobre espionagem, traição e morte na ficção. James Bond não descende dos espiões deste livro e acredito que seu criador deve estar estrebuchando no túmulo por Quinn zombar tanto do trabalho de espionagem.
Em geral, eu leio as notas dela ao final do livro para encontrar alguma lógica no que serviu para ela de inspiração. Mas neste livro, eu desisti. É um livro patético pela fraqueza da história - e, mais uma vez, de seus personagens parecidíssimos, sai livro, entra livro -, e que não conseguiu unir os dois motes que destacavam na sinopse - uma sinopse pode engrandecer ou matar um livro.
A mocinha parece ter um leve retardo mental (e eu não estou brincando quanto a isto!) e o mocinho parece um adulto que esqueceu de amadurecer.
Deu pena do livro. Vai ganhar uma nota pelo esforço que Julia Quinn teve em romper com a família Von Trapp.

Nota: 0,5/5



Comprei este livro ano passado e enrolei, desde então, para lê-lo. Apesar de ser um livro de ficção científica e do tamanho diminuto, não evoluí rápido na leitura quanto em Frankestein, que, por sinal, li em uma tarde. A história é interessante, a ideia do uso de substâncias que alterariam um organismo e mesmo a personalidade de um ser humano é digno de nota porque a história foi escrita no século XIX. Uma época que, apesar a revolução industrial estar a todo vapor (me desculpem o trocadilho!), estávamos a um século de distância de entendermos um pouco mais profundamente a questão das múltiplas identidades em um mesmo ser. Ou seja, é um livro digno de nota por estar à frente de seu tempo. Mas é só. O relato focando no advogado é massante. O "mistério" sobre o médico - e o monstro - não envolve. E, sinceramente, não senti pena ou senso de justiça com o final. Que na verdade, foi superficial e dava espaço para mais desdobramento.
Acredito que Stevenson escreveu de maneira mais envolvente sobre piratas.


Nota: 3/5



Eu tenho montes de livros sobre Cabul no Afeganistão, mas nunca me empenhei, de verdade, em ler um deles porque a única coisa em que penso é no sofrimento dos afegãos, invadidos e despojados de suas vidas a cada vez que alguém decide "salvá-los do inimigo". Que, na verdade, nem sempre é do povo do país, mas sim do invasor ou criado pelo mesmo.
Mas me arrisquei com este livro e me encantei em olhar aquele povo sofrido como também belo e rico de histórias.
O livro conta a história de cinco mulheres que tem os caminhos cruzados pelo destino. Fala de seus sofrimentos, lutas e anseios e mostra, ainda que pouco o quanto mulheres são o mesmo que nada em um mundo machista.
O final é justo; e seria melhor se o fosse para cada mulher real que lá se encontra cada Jamila encarcerada, torturada e maltratada que espera por justiça e liberdade de ser quem é.
É um livro que dói mas que mostra o quanto o povo afegão vive e segue sob a esperança.
Oxalá, ELAS e eles a obtenham um dia.


Nota: 5/5



Wyvern, o Dragão Alado, A. A. Attanasio (livro)


Nossa, a quanto tempo eu estou lendo este livro!
Para mim, se tornou um livro para a vida. Acho que comecei a lê-lo a mais de dez anos, mas sempre me segurei para terminá-lo porque é muito bom. Este ano, eu decidi que precisa dar um desfecho a esta leitura e o coloquei em minha meta pessoal e o terminei em um piscar de olhos. E olha que é um calhamaço daqueles!
Mas Wyvern tem os elementos de que mais gosto na literatura: aventura, misticismo, ciências e História... É um leque de temas agrada a todos os amantes do mundo dos livros. Cada página, cada capítulo é uma nova descoberta. Até o Brasil e o sofrimento dos africanos sequestrados e trazidos à força para cá é tema.
Gosto da percepção do protagonista sobre os tais avanços civilizatórios do Ocidente que, na verdade, não passam de justificativa para invadir e pilhar. É triste o quanto ele percebe que seria melhor se o mundo permanecesse como o estado em que viviam o seu povo originário. Mas, infelizmente, como em um livro, não dá para alterar suas história depois de escrita e lançada no mundo.

Wyvern é um livro que me marcou e que eu recomendo.


Nota: 5/5



Walden, Henry David Thoreau (ebook)

 "... se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se
esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras. Há de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. A medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão vosso trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo."

E assim se encerra minha aventura acompanhando Henry David Thoreau. Jamais imaginei que terminaria este livro, porque eu não queria terminá-lo. Ler pequenos trechos dele ao longo dos últimos anos era como viajar para um lugar tranquilo e onde a natureza era real em comparação à capital do Estado em que vivo. E este lugar de paz era o lago Walden.

Porém, como Thoreau bem lembrou se verdadeiramente se quer desbravar o mundo, primeiro deve fazer algo simples: Conhecer a si mesmo.

Foi com enorme prazer que li a última página e percebi que valera a pena.

Walden é um lugar que se tornou atemporal; ao menos o lago Walden que Thoreau visitou, que não é mais o mesmo que existe no presente. E, para ele, eu convido a todos que desejam aventurar-se para além deste mundo moderno e frenético em que vivemos.




Nota: 5/5




Então, estas foram as leituras deste primeiro mês do ano. Estou gostando muito da falta de pressão que coloquei em mim para ler e acredito que esta deva ser a maneira que devemos seguir para que os livros nos satisfaçam de maneira prazerosa.


Até a próxima!

Sangue na Neve - Lisa Gardner





Quando comecei a ler este livro, me lembrei na hora dos romances de Kathy Reichs (autora de livros e também da série Bones) e de Jeffery Deaver (do livro e filme O Colecionador de Ossos, entre outros). Li mais os livros dele do que os dela, mas sei que ambos são ótimos em criar personagens profundos e envolventes, enredos instigantes e desfechos completamente imprevisíveis.
Acreditei que Lisa Gardner vinha da mesma cepa...
Não foi assim.
A autora publicava romances na linha dos tão conhecidos romances de banca e decidiu passar para os policiais, cheios de descrições sobre como morrer violentamente. Era para ser algo de qualidade, já que ela foca bastante em descrever os detalhes de corpos em estados variados de putrefação ou não. Algo que poderia se considerar, digamos, primoroso exatamente na linha de Reichs e Deaver. Quem já leu algum livros deles sabe do que falo.
Porém, são descrições técnicas demais, longos trechos focados nisso. E, apesar de eu achar a história interessante, para mim, não houve tantas reviravoltas, já que dava para saber, antes do meio da história, quem eram os vilões.
Outra coisa foi a personagem mala da história. Não era a protagonista e foi decepcionantemente retratada. Uma mulher grávida não é chata. Uma policial correta e obstinada não é repetitiva. Mas D.D. foi.
As evidências na cara dela e ela mantendo-se teimosamente contra qualquer instinto para além do óbvio que se mostrava. Me fez, ao final do livro, não querer ler a série em que a personagem é protagonista.
Depois de Temperance Brennan e Amelia Sachs (e de outra que não digo por ser spoiler demais), fica difícil ver uma personagem que podia mais mas se mostrou aquém do que se esperava.
O resto não fugiu à linha de romances policiais. Muita morte, sangue, pistas, pistas e um final que quase foi óbvio para mim.
Não me envolveu. Prometia e eu esperava mais. Não mais corpos ou descrições dos mesmos, mas, por ser uma autora de romances policiais, criando um livro em que duas mulheres se digladiam até o fim, poderia ter algo de diferente, algo singular para prender a atenção para além das descrições de cadáveres. Eu prefiro as dos livros da Reichs.
De qualquer forma, a personagem principal foi quase perfeita e isto valeu a leitura. Eu gostaria de ler mais sobre ela (sem a mala da D.D.) em uma série de livros, mas nem sempre conseguimos o que desejamos.
De qualquer forma, achei que a autora foi muito feliz nas partes relacionadas ao trabalho policial; detestei aquela mudança de voz, passando de primeira para terceira pessoa de acordo com os capítulos pois não qualifica um texto agir assim; e acredito que Tess Gerritsen foi mais bem sucedida, passando dos romances da Harlequin Books para os policiais, do que Gardner.
Sei que não foi o primeiro livro de Gardner e já li autores que melhoraram sua escrita com o passar do tempo. James Rollins foi um que passou de um livro descritivo medíocre para uma narrativa envolvente como um todo nos outros. Espero que isto tenha ocorrido com a mórbida Gardner.

Um abraço e até a próxima!

Desafio de Filmes 2017

Olá para todas e todos!

Eu já comentei que amo ler livros, mas em nenhum momento tinha pensado antes que, como o Desafio Literário Agridoce 2017, eu poderia me desafiar a ver filmes que estão há décadas na minha lista e que eu enrolo e enrolo e não assisto e também os últimos lançamentos que surgem no cinema.

Bem, se este é o ano do Desafio, vou de cinema também

Garimpando pela blogosfera, eu percebi que é mais difícil hoje em dia encontrar quem faça este tipo de desafio (literário tem aos montes!). Tem, claro, o desafio de "52 Filmes em 52 Semanas", mas eu achei muito restritivo (palavra difícil, hein?) porque se eu assistir menos que a meta, vou me sentir atrasada frente a quem arrasa com os 52, e se eu passar disso, vou me sentir culpada por ser "fominha de filmes"(?) (tem semana em que não vejo um filminho sequer e tem outras em que assisto um ou mais de um por dia. Vai da verve mesmo!). Então, percebi que eu poderia adaptar perfeitamente as listinhas de livros ao meu gosto bem aqui bem como, à medida que o ano for avançando, eu vou incluindo novos filmes. Então, comecemos por estas guias:

1. Um filme do Studio Ghibli - Meu Amigo Totoro ASSISTI

2. Um filme dos Stúdios Diney/Pixar - Moana: Um Mar de Aventuras ASSISTI

3. Um filme de terror - Saco de Ossos

4. Um filme de suspense - A Vida de David Gale

5. Um filme de romance - Razão e Sensibilidade ASSISTI

6. Um filme policial -

7. Uma comédia romântica - Abaixo o Amor ASSISTI

8. Um clássico (ainda que refilmagem) - Sete Homens e Um Destino ASSISTI

9. Um curta-metragem - La Luna, Bococo e Out of Sight

10. Um filme de ficção científica - A Chegada ASSISTI

11. Um filme de aventura - Guardiões da Galáxia Vol. 2 ASSISTI

12. Um filme sobre um fato histórico - Pompeia

13. Um filme sobre uma mulher ou grupo de mulheres - Estrelas Além do Tempo

14. Um filme baseado em um livro - Comer, Rezar, Amar

15. Um documentário - Sal da Terra

16. Um drama - O Menino do Pijama Listrado e Melancolia

17. Um média-metragem - 

18. Um filme nacional - O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

19. Um filme sobre comida - O Tempero da Vida

20. Um filme com o Halloween como tema (ou se passando nele) -

21. Um filme com uma história inspiradora - Hector e a Procura da Felicidade ASSISTI

22. Um filme de ação - John Wick: Um Novo Dia para Matar ASSISTI

23. Um filme do grupo Monty Python - A Vida de Brian

24. Um filme de fantasia - A Bela e a Fera

25. Um filme de mistério com um assassinato - O Nome da Rosa

26. Um filme clássico moderno -

27. Um filme baseado em uma autobiografia - Livre

28. Um filme com um nome como título - Jane Eyre

29. Um filme de uma série - Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar ASSISTI

30. Um filme com um número no título - 20.000 Léguas Submarinas

31. Um filme ou animação com personagens não-humanos - Os Smurfs e a Vila Perdida

32. Um filme que está no topo da lista de filmes a assistir -

33. Um filme pelo trailer - Uma Repórter em Apuros ASSISTI

34. Um filme de espionagem - Códigos de Defesa ASSISTI

35. Um filme com uma heroína feminina - A Rainha do Castelo de Ar ASSISTI

36. Um filme com história de passando no futuro - Blade Runner 2049

37. Um filme aclamado pela crítica - Aquarius

38. Um filme sobre racismo ou outro preconceito - 12 Anos de Escravidão

39. Um filme de Peter Sellers - O Rato que Ruge

40. Um musical - Funny Face (Cinderela em Paris) ASSISTI

41. Um filme sobre a época pós-Segunda Grande Guerra - Cine Majestic

42. Um filme sobre imigrantes - Uma Boa Mentira

43. Um filme sobre esportes - Duelo de Titãs

44. Um filme de um gênero que não se tem o costume de assistir - Alien: Covenant

45. Um filme com uma boa trilha sonora - Across the Universe

46. Um filme de um ano particularmente especial - 

47. Um filme épico - Dunkirk

48. Um filme sobre música - Whiplash: Em Busca da Perfeição

49. Um filme lançado em 2016 - Vizinhos nada Secretos ASSISTI

50. Um filme à la Sessão da Tarde - Destino em Dose Dupla ASSISTI

51. Um filme com o Natal como tema - Garotos em Guerra

52. Um filme com um tema para renovar as energias -




P.S.: Alguns, filmes, eu verei. Outros ficarão por aí ou serão substituídos ou assistirei a ele e mais outros do mesmo gênero. E alguns preencherei ao longo do ano. A lista não é fixa e mudará de acordo com o passar do tempo.


Então, boa sessão de cinema e não esqueçam a pipoca!

Eu ♥ Este Livro #5

Olá, retornamos para mais um Eu ♥ Este Livro.
Falar sobre meus livros favoritos é um deleite para mim. Corro os olhos pela estante e sinto um enorme prazer em escolher um que já li apenas por saber que a releitura será tão gostosa quanto foi a primeira. E é assim que nos sentimos sobre um livro de que gostamos, tê-lo para reler sempre que quisermos faz com a leitura o torne um tesouro dos mais caros.
E partilhar com outras e outros nossas preferências, encontrar quem também se apaixonou pelo mesmo livro é muito bom.
Assim, sob este sentimento tão prazeroso, trago o próximo livro do Eu ♥ Este Livro, que é...




Faz pelo menos uma década que li este livro. E não foi na escola. Sinceramente, eu sempre detestei os chamados clássicos da literatura brasileira. Achava um tipo de escrita chata e rebuscada demais. Como adolescente, era difícil me fazerem quer ler por vontade própria algo do tipo. Só obrigada, como era na escola. Li vários desta forma, Machado de Assis era o divo da época (e acredito que até hoje o seja), porém, para um público que crescia sem o hábito de ler, tentar incutir o costume por meio de deveres que incluíam minuciosas resenhas e resumos dos livros, não ajudava. E assim fui até a idade adulta, quando comecei a olhar para este gênero com menos aversão e mais interesse. Primeiro foi com O Cortiço, de Aluísio Azevedo que achei muito interessante. Percebi, na época, que literatura brasileira não era o bicho-papão que eu imaginava. E por uma indicação inusitada, decidi ler Senhora.
O livro é um romance publicado em 1874, sendo um dos últimos escritos por José de Alencar. É considerado o romance mais urbano do escritor, porque ele buscou mostrar e criticar levemente a sociedade fluminense em seus costumes e hábitos diários (lembrando que, na época, a capital do Brasil era no Rio de Janeiro, por isto, o local mais urbanizado do "país"). A protagonista Aurélia é  filha de uma costureira pobre e órfã de pai que se apaixona por um jovem ambicioso. Como o desejo do homem é ter um futuro com menos dificuldades do que ao lado da pobre moça, já que é um homem elegante, fino e que gosta de possuir o que havia de mais caro a se comprar na época, ele decide romper com ela buscando uma outra mulher que tenha um bom dote (costume antigo, mas ainda em vigor em algumas regiões do mundo, que consiste em a família da noiva dar uma quantia, de bens e/ou dinheiro, a um noivo para acertar o casamento. Sem o dote, uma mulher nada valia...) para se casar. Com o passar do tempo, Aurélia que, além do irmão, também perde a mãe, vê-se sozinha no mundo. Porém, a herança de um avô provoca sua ascendência social e ela passa a ser uma rica donzela que procura por um marido. Mas não qualquer marido.
Ainda ferida pela atitude de seu antigo amor, ela decide negociar o casamento com o mesmo homem, mas sem que ele saiba quem seria sua futura noiva. E ele, apenas pensando em usufruir do dinheiro do dote, aceita sem pensar duas vezes. Ao descobrir quem ela é, Seixas, o homem que a magoou de maneira tão vil, fica feliz por ser Aurélia, pois ainda sente-se profundamente apaixonado por ela. Mas Aurélia, do alto de sua nova posição financeira, esclarece a ele que aquele não foi nada exceto uma transação de negócios. Ela o havia comprado. Para representar o papel que necessitava perante a sociedade vigente, que não lhe permitia ser rica e independente para viver como quisesse.
Assim, Seixas percebe que vender a "alma" por um dote era um preço alto demais a pagar.
É claro que eu não vou contar o desenrolar da história, mas posso dizer que me surpreendi com a escrita de Alencar. A questão do "rebuscamento" da escrita ainda se mantém, mas a história envolve ao ponto de não se importar tanto com isto (e dicionário serve para tirar dúvidas mesmo!). A personagem principal, invariavelmente, mantém-se presa ao script que o Romantismo pedia para cada personagem - a mocinha pobre, o amor negado, o sofrimento do mocinho e o final...
Bem, o final só se descobre lendo o livro.
O que gostei no livro foi uma ruptura (leve) com a ideia de que a personagem feminina deve apenas sofrer calada toda a sorte de dor que o homem principal da história criar. Não chegaria a dizer que Alencar "rompeu" com qualquer tabu ou estigma que a mulher carregava/carrega, mas, às vezes, é bom que uma obra brasileira de época possa trazer como protagonista uma mulher diferente do usual.

Eu recomendo este livro a quem já leu outros da literatura brasileira, mas também a quem gostaria de começar a ler e já andou se divertindo com os de Jane Austen. Lembra muito as confusões amorosas de suas heroínas, mas com mais sarcasmo e cheiro de vingança.


Obrigada pela companhia e até a próxima!

Eu ♥ Este Livro #4

Estamos em pleno começo de semana e nada melhor do que conhecer algo sobre um novo (talvez, velho. Quem sabe, desconhecido) livro. Por isso, eu escolho com cuidado os que desejo que outras e outros leiam pois se foram especiais para mim suas leituras, desejo que gerem o mesmo sentimento a quem pousar os olhos sobre suas linhas.
Bem, para este novo Eu ♥ Este Livro, fiz, como sempre, um pequeno e rápido sorteio e o escolhido foi...




É um livro curto e de rápida leitura. Pelo menos diante, diante dos outros que ela escreveu. Mas foi o primeiro que li dela e achei fantástico seu entendimento do mundo (o livro foi escrito em 1929) com relação às mulheres e suas condições de vida dentro da sociedade. Por minha formação acadêmica (e, claro, por ser uma mulher!), eu tenho lido bastante sobre a condição feminina, mas nunca cheguei (na época da faculdade) a ler um livro sequer de Virginia Woolf. Até que descobri Um Teto Todo Seu na biblioteca (eu já contei sobre minhas manias em relação a livros, incluindo emprestá-los da biblioteca sempre que possível? Bem, eu conto com mais enfoque depois). Foi uma descoberta fantástica porque eu sempre me perguntava como as escritoras de antes de meu tempo se viravam para poderem se manterem produzindo obras em uma época (não tão diferente assim da atual) em que esperava-se que "produzissem", na verdade, almoços, jantares, roupas lavadas, casas limpas e crianças limpinhas e comportadas. Eu me perguntava o que elas pensavam (aquelas que não queriam nada disso) desta "obrigação biológica" que lhes era imposta socialmente falando (e literalmente também). E foi com livros como este que entendi como George Sand (que, na verdade, se chamava Amandine Aurore Lucile Dupin), Currer, Ellis e Acton Bell (na verdade, Charlotte, Emily e Anne Brönte), J.K.Rowling (é, ela também...), Robert Galbraith (J. K. Rowling de novo), P.D. James (Phyllis Dorothy James), e George Eliot (Mary Anne Evans) buscavam lutar para que o que escreviam pudessem ter o mesmo espaço. É claro que a publicação em si não lhes garantia status algum dentro do mundo literário, e mesmo hoje em dia, vê-se ainda o caminho longo que escritoras trilham dentro deste complicado clubinho de autores. Um texto muito legal que encontrei sobre o assunto é este aqui.
Mas voltando ao livro, Um Teto Todo Seu é um ensaio (avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo; teste, experimento.), escrito como uma narrativa, que se baseia nas palestras que Woolf dava para estudantes de duas universidades exclusivamente compostas de mulheres (nessa época não era permitido misturar alunas e alunos exatamente como nos colégios internos da vida) e tem capítulos que impactam pelo que ela mostra sobre a relação do trabalho e da mulher como somente pensada em um norte: o lar. O pai de Woolf, por exemplo, (que era escritor) acreditava que apenas meninos deveriam ir para a escola e, assim, a própria Virgina não teve acesso ao ensino tradicional; demonstrando a importância da educação na vida das pessoas e o quanto a falta dela veio a prejudicá-la. Cita Shakespeare, a diferença de tratamento que ele e uma irmã inventada teriam dos pais. Critica aqueles que tentaram deslegitimar a escrita de autoras conhecidas de sua época apenas por serem mulheres (seres considerados intelectualmente inferiores)

"A mulher guia como um farol as obras de todos os poetas desde o início dos tempos. (...) Se as mulheres não tivessem outra existência que não na ficção escrita pelos homens, na verdade, alguém até poderia pensar que ela é uma pessoa da mais alta importância; bastante variada; heroica e desprezível; esplêndida e sórdida; bela e discreta ao máximo; tão grande quanto os homens, alguns diriam até maiores. Mas estas são as mulheres na ficção. Não, na realidade, como o Professor Trevelyan apontou, elas são trancadas, abusadas e jogadas pelos cantos dos quartos.
Assim se formula um ser bem excêntrico e multifacetado. Ela exerce a maior importância imaginariamente; ela é completamente insignificante efetivamente. Ela está na poesia de capa a capa; ela é tudo, mas é inexistente na história. Ela manda na vida de reis e conquistadores na ficção; na realidade, ela é a escrava de qualquer garoto cujos pais enfiaram um anel em seu dedo. Algumas das palavras mais inspiradas e dos pensamentos mais profundos da literatura saíram de seus lábios; na vida real ela mal pode ler; ou soletrar; e era propriedade de seu marido." - trecho de Um Teto Todo Seu

E aquelas que vão um pouco além da "esquina", tem de lutar (literalmente) para que esta decisão possa ser mantida. É interessante porque Virgínia somente pode seguir sua profissão pela providência de uma parenta que lhe reservou uma renda por toda a vida (no Reino Unido e outros locais sob as mesmas regras de economia havia este costume). O que a ajudou a poder voltar-se completamente para a escrita. E nos brindar com suas joias literárias.
Mas pensemos, e se esta parenta não tivesse feito esta generosidade em testamento? E se Virginia Woolf, como a maior parte das mulheres de seu tempo (e de hoje) tivesse de viver para trabalhar, será que teria tempo e/ou oportunidade de ter um "teto' onde pudesse se sentar, debruçar sobre uma mesa e escrever seus pensamentos e ideias?
Acredito que não. E é sobre esta percepção de privilégio que a autora decidiu palestrar e compilar tudo em um livro. É claro que o pensamento de poder ser uma pessoa com condições de se dedicar exclusivamente a uma profissão - que precisa de tempo para ter retorno - é mais complexo do que se possa imaginar. Lendo as críticas ao livro, eu gostei da fala da escritora Alice Walker (A Cor Púrpura) que diz:

"O que, então, podemos dizer de Phillis Wheatley, uma escrava, que nem sequer possuía a si mesma? Esta moça doente, frágil, preta, que precisava de alguém para ajudá-la, às vezes — a saúde dela era muito precária — e que, se tivesse nascido branca, teria sido facilmente seu intelecto considerado superior dentre todas as mulheres e a maioria dos homens na sociedade de sua época."

"Walker reconhece que Wheatley estava em uma posição muito diferente da narradora do ensaio de Woolf, em que ela, Wheatley, não possui ela mesma, nem mesmo "um quarto de sua propriedade". Wheatley e outras escritoras existem fora deste teto, fora deste espaço que Woolf define como à parte para escritoras. Embora ela chame a atenção para os limites do ensaio de Virginia Woolf, Alice Walker, unindo a prosa feminista (escrita de mulheres) ao espaço físico e metafórico dos "jardins de nossas mães", rende homenagem ao semelhante esforço de Woolf pelas que procuram um espaço,  um "quarto" para escritoras."

Enfim, o labor do escritor é difícil em um mundo que desvaloriza o trabalho intelectual frente ao braçal. Porém, o da escritora se veste mais do que apenas desta luta binária. A questão da condição feminina dentro da sociedade é refletida não apenas em sua escrita, mas também em sua busca por posicionamento profissional. A escrita feminina acaba por ser desvalorizada pelo imaginário que se construiu/constrói sobre o "ser mulher", mas também pela desvalorização da ideia de um ser feminino sentado por horas diante de um caderno, um computador ou outra ferramenta. Por isso, a importância deste livro (e de outros tantos sobre a questão do labor da escritora), para que se rompa com a ideia canhestra de que 1) a escrita feminina não possui valor e conteúdo inestimável para humanidade e 2) ela não deve ter seu espaço (físico ou virtual) valorizado, mantido e respeitado.

Eu recomendo este livro a cada uma e cada um que queira porque Virginia Woolf considerava Anônimo como uma mulher e porque é preciso que cada uma tenha um teto todo seu para criar e gerar o conhecimento (de qualquer tipo) que a Humanidade precisa.


Até o próximo livro!