Eu ♥ Este Livro #7 - Como se Apaixonar por uma História tão Simples e tão Bela

Quando decidi começar a ler esta história, jamais imaginei riqueza que ela teria a ofertar.

Esta é a Graphic Novel Blossoms in Autumn dos ilustradores e escritores Zidrou e Aimée de Jongh.
Nela narra-se sobre a jornada de duas pessoas que chegam à terceira idade e avaliam o que viveriam. Em parte, com arrependimentos, mas em parte com certo saudosismo. Mas o que mais a história fala é sobre algo que angustia a todas as pessoas, porém, que esquecemos que é certo tocar mais profundamente em quem se torna idoso.

O personagem masculino é quase um idoso e se torna um aposentado. Algo que tanto quanto a velhice é tratado como indesejável, ou um sinal de "fim da vida", pois a sociedade ocidental não sabe como lidar com nada que não se refira à Juventude. Já a personagem feminina é um pouco mais velha do que ele e sente, como acontece com todas as mulheres os efeitos da idade como algo que se relaciona, e muito, com a progressiva "perda da juventude", ainda que esta "perda" não devesse ser considerada como essencial.

Ambos tem suas vidas alteradas após iniciarem uma conversa casual e investirem no que surge. E isto os leva a descobrirem o amor, o desejo, o prazer em estar com outra pessoa, desejo físico e, por fim, a alegria que a vida ainda reserva a eles e que não conseguiam enxergar quando seus caminhos ainda não haviam se cruzado.

E deste encontro, temos um final surpreendente, que vale todo o percurso que fazemos acompanhando a jornada destes dois encantadores seres.

Confesso que foi uma leitura que não apenas me cativou, mas também me surpreendeu de uma forma positiva. Me fez confirmar o que eu sabia sobre as pessoas envelhecerem, e suas dúvidas e questionamentos sobre a Vida, o Universo e Tudo Mais permanecerem. E me fez perceber que seguir pela jornada que é a Vida nos leva bem mais longe do que se pode imaginar se afinal escolhermos nos arriscar.

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Até a próxima!

Eu ♥ Este Livro #6 - Como Política e Religião podem Trabalhar juntas em Benefício Material 'Apenas' de Ambas...

Apesar de A Inquisição , livro da doutora em História Anita Novinsky, ser apenas uma rápida introdução sobre trezentos anos de violência legalizada, o livro é capaz de abranger a maioria dos grandes eventos que ocorreram antes, durante e após a mudança de nome da inquisição. Bem como analisa os fatos da ocorrência chamada Inquisição surgindo em dois países que não haviam sofrido com nenhum tipo de totalitarismo até o fim da Idade Média europeia. 
A mudança neste caráter da vida na península ibérica, foco principal do livro, é objetiva e acertadamente apontada pela historiadora Anita Novinsky como sendo tanto de caráter social quanto pelos dois pilares de manutenção dos grupos que sempre norteiam os caminhos das sociedade: o Poder e o Dinheiro.
Mais do que a luta pela "pureza de sangue" ou por uma "unidade" que nunca foi necessária, no caso da Espanha - visto que era uma nação que se mantinha pacifica, com suas diferenças culturais, religiosas e sociais com mouros,  judeus e cristãos convivendo sem disputas ou mesmo o sem uso do racismo e da violência como palavras de ordem antes do século XV -, a Inquisição surgiu e manteve-se por tantos séculos porque o Estado ambicionava as riquezas que sabia que grupos, como o dos judeus, tinham em grande quantidade.
E como ocorreu com as riquezas dos templários, pilhados e acusados de bruxaria, e queimados pelos seus "crimes" - ainda que o interesse fosse pela riqueza acumulada e pelas terras em grande quantidade que os templários tinham, que concorriam com as riquezas da Igreja e mesmo com as do rei francês na época -, o Estado e a Igreja perceberam o quanto teriam de poder e riqueza se usassem a desculpa da heresia e se livrasse de judeus, mouros e de seus descendentes, mesmo os convertidos aos catolicismo. Pois, como é citado no livro, "nem judeus nem mouros seriam capazes de ameaçar a unidade da fé", mas isto puderia ser usado para legalmente roubar o que eles tinham conseguido acumular.
Em si, a natureza humana jamais se altera em questões que se utilizam de termos e regras para reafirmar o que desejam que populações (no caso, de Portugal e Espanha do início da idade moderna, iletradas!) acreditem e sigam; produzindo, então, corpos e mentes mantidos sob o controle do medo e com suas atenções desviadas das péssimas administrações que os regem e do fato de que a falta de criticismo e de dúvidas, é o que mantêm a centralização do Poder nas mãos de um pequeno grupo: no caso, o Estado.
Pois, mais do que pela "manutenção da fé", a Inquisição foi criada e manteve-se na Espanha e em Portugal pelas necessidades Políticas dos governantes dos dois reinos de controlar o povo e pilhar aqueles que pudessem ser usados como justificativa para os males que assolavam a Península Ibérica. 
Dizer que uma nação passar fome (para além dos problemas climáticos) não é culpa dos péssimos governantes, que apenas gastam e oneram o povo, mas, sim, de um grupo sem Poder ou meios de alterar as Estruturas, é o que de mais sórdido e fácil que quem detém o poder e as riquezas faz através da História humana.
Usar os judeus como bodes expiatórios para os graves problemas que as nações ibéricas enfrentavam e ao mesmo tempo obter o dinheiro para expulsar a eles e aos mouros, foi o que os reis espanhóis e portugueses perceberam ser o acertado a fazer em benefício deles próprios.
A Tortura era algo instituído como "correto" e era praticada sobre qualquer pessoa; até mesmo contra crianças. O assassinato pelo fogo, vulgo, queimar vivo era algo que ocorria em grande escala. Porém, o mais chocante era o quanto os "crimes" de que as pessoas eram acusadas eram fruto da hipocrisia, que se tornara "um vício nacional" em alguns países.
Uma pessoa era denunciada e podia chegar (muitas vezes chegava!) a ser queimada viva por causa de um "Ouvi dizer"; dito por alguém ou arrancado de um preso torturado pelos homens brancos "puros" autodeclarados "Inquisidores". E com isso, a Inquisição, apesar de sua exemplar organização em destruir vidas e pilhar bens (motivo central de sua existência) em benefício próprio ou do rei, mantinha-se por meio de uma sadismo legalizado, prejudicando todo o avanço de uma sociedade; gerando o espaço para a percepção de que, mesmo nas terras do continente americano, ao invés de levar justiça, usavam da religião como desculpa para visar e roubar aqueles que se mostravam mais lucrativos para os cofres reais e inquisitoriais.
A Inquisição também possuía os crimes mais absurdos e carregados de preconceitos, que se baseavam em um absoluto vazio moral que era a opinião pessoal de um grupo em relação ao outro. Por costume,  se condenava judeus. E mesmo quem não era judeu, era condenado por... "judaísmo".
Também havia os crimes ridículos (houve pessoas que foram presas pelos inquisidores por comer carne na quaresma, comer antes de se confessar, ser gay, chamado de sodomia na época e ainda hoje em alguns países hipócritas,  por blasfemar, ou seja, xingar, não comungar, ser bruxa/feiticeira (esta se não fosse incluída, não seria uma "boa" misógina e hedionda Inquisição!), por heresia (mas em terra de pessoas iletradas nem se sabia direito como explicar o que era uma "heresia", mas se prendia, mesmo com esses "atos indeterminados", por convicção sobre heresia), por "judaísmo" (o racismo contra judeus era vergonhoso e institucional), por ler se não fosse o que a Inquisição queria que lessem, e, por fim, por falar mal do santo ofício) que podiam render até mesmo condenação na fogueira; não era costumeiro acabar nisso, já que se tinha a Tortura para compensar.
Os auto-fé (quando muitas vezes dezenas de pessoas eram queimadas vivas) eram deixados para os "dias de comemoração" pelo casamento de alguém da realeza ou coisa similar. Então, quando não se queimava alguém vivo em uma fogueira, torturava-se a pessoas até enlouquecê-la; e ela ou se matar ou permanecer mutilada pelo pouco que lhe restava de vida.
Falando sobre os Mutilados: a perversidade da Inquisição pode ser medida por isto também (para além de que na hora de matar alguém queimando vivo, a Inquisição passava o fogo para o Poder civil, para que não dissessem que eram eles que acendiam a fogueira. Ou seja, hipocrisia em toda a sua face pura e perversa). Os mutilados eram pessoas que, para além de terem seus bens roubados, caso fossem condenados porém soltos das prisões inquisitoriais, saiam com marcas indeléveis. Como um escritor português que teve as mãos destruídas; seu sustento destruído e seus bens roubados era a forma de dizer que os homens da Inquisição era 'benevolentes'. Provavelmente isto era notabilizado para os próprios inquisidores e para um povo que por medo de prisão, tortura e assassinato não ousava retrucar diante de tamanha hipocrisia e baixeza.
Não se pode se esquecer também da Censura, o péssimo hábito, que 'também'  havia naquela época, em se dizer o que as pessoas podiam ler ou não,  imprimir ou não. Em Portugal, Espanha e no território americano a Inquisição agiu como todo braço autoritário faz: proibiu, alterou, rasgou e queimou livros. E se a pergunta é "por que eles faziam isto?", era porque um povo que não tem acesso a leitura e nem a percepção sobre a opressão que sofre é um povo mais facilmente dominável e controlável.
Assim, a Inquisição não passava de um grupo de terror que focava no que obteria das pessoas (quando alguém da realeza casava, sempre havia um auto de fé para roubar o dinheiro de quem era "interessante" prender e talvez, queimar na fogueira (porque casamento custa caro e a realeza nunca gostou de trabalhar para pagar por seus próprios e perdulários gastos!)); e esta instituição jamais trabalhou para que as sociedades destes reinos e das colônias evoluíssem, se instruírem e alcançassem o nível de desenvolvimento dos demais, porque seria a ruína da própria inquisição mantida sobre a ignorância das pessoas e a hipocrisia do próprio santo ofício.
Mas se fazia explícito os interesses da Inquisição, como já dito acima,  que resumiam-se em prender usando a fé como justificativa para espoliar quem eles quisessem; se possível alguém rico do grupo dos costumeiramente visados cristão-novos; ou algum outro que se pudesse acusar de algo que parecesse aceitável aos olhos dos homens de "puros".
É preciso entender que, lembrando sobre o "crime" de "falar mal do santo oficio", quanto mais a pessoa fosse esclarecida e capaz de perceber os "pés de barro" da Inquisição, ou seja, sua hipocrisia dogmática, sua ganância focada na obtenção do lucro fácil por meio do roubo legalizado e sua inapetência em lidar com as pessoas que não se adequassem aos seus interesses,  mais este 'crítico' se via na mira dos 'homens de bem' daquela época; sendo muitas vezes, estes esclarecidos vindos do próprio clero, indignados com as práticas sádicas inquisitoriais objetivadas em ganhos materiais para além do que afirmavam que faziam: "salvar almas".
Giordano Bruno, Manuel Lopes de Carvalho entre outros foram membros do clero que se indignaram e falaram contra a hipócrita e sádica Inquisição e sua egomania de "infalibilidade", buscando expor o quanto de nada puro havia na organização autoritária que oprimia e reprimia pessoas; se arvorando ser para "salvá-las, e à comunidade, de si mesmas e de seus pecados", mas nos "bastidores" visavam apenas o quanto de riquezas obteria prendendo, torturando ou matando. Mas principalmente quem se "rebelava" mostrava o quanto grupos autoritários como a Inquisição, apoiados e mantidos por governos coniventes e oportunistas, são capazes de destruir todo o avanço de um povo, jogando-o nas trevas da ignorância e da estupidez.
Por isso, torna-se tão importante discutir e esclarecer sobre o que foi a Inquisição e mostrar o que de equivocado e perigoso se esconde sob uma capa de pureza inexistente e de sabedoria chauvinista; pois ambas jamais se baseiam em ganhos para todos, mas, sim, na manutenção do Poder e do Controle nas mãos de poucos, vulgo, elites, e na submissão pelo medo e pela ignorância de muitos, vulgo, Povo.
Além disso, é necessário se perceber porque repetidas vezes a Humanidade volta a lidar com extremismos amparados por discursos autoritários e inaceitáveis que afirmam supremacias fantasiosas e tolerância ao ódio contra quem escolhem como "diferente". A Inquisição, usando outro nome, ainda sobrevive dentro da própria Igreja Católica e no passado recente, foram endossadas suas vergonhosas práticas por um papa do século XX. Contudo, organizações criadas para coibir, incutir o medo e causar destruição dentro de uma sociedade jamais deve ser tolerada, pois se baseiam em opiniões e visões pessoais contra outras pessoas e nos ganhos materiais  que tentar controlá-las ou destruí-las podem gerar.
A Inquisição mostrou-se intolerante e intolerável. Autoritária e sádica apenas, e como sempre, pelo que obteria com sua ganância. Corrupta e perversa ainda que, em seu discurso, clamasse por uma suposta e não capaz de obter (por sua mortalidade e falibilidade) "salvação de almas". E extremamente arrogante por acreditar que simples homens, apenas pelo seu nascimento, teriam o direito de decidir sobre a vida e a morte de outros.
No século XXI como no século anterior, ainda se vê na Igreja as nuances dos adeptos da Inquisição por meio de discursos intoleráveis e absurdos, muitas vezes ditos em concordância com crimes graves, como a pedofilia; bem como, figuras políticas vêem com bons olhos as práticas abjetas cometidas no passado por este tipo de controle ditatorial (comparado pela autora à Gestapo nazista) por terem gerado ganhos vultosos para quem os apoiou no passado, no caso, nobreza e realeza; hoje, políticos extremistas e burguesia empresarial.
Porém, também pode-se perceber que neste mundo, em que em grande parte não mais aceita que a hipocrisia e o medo sejam palavras de ordem, um erro que trouxe prejuízos sociais, intelectuais, econômicos, culturais, tecnológicos, materiais entre outros para Portugal, Espanha e para os territórios colonizados, como o erro que a Inquisição foi não terá tanta facilidade em se repetir sem que haja uma lógica, racional e correta resistência.

Este é um livro que valerá a leitura por cada apontamento que faz sobre a História de um dos momentos mais sombrios de Portugal, Espanha, Brasil e demais colônias na América e que será sempre uma ótima recomendação.

Até a próxima leitura!

E que Venham outros Livros com Mais Personagens Femininas Reais!!!

Estas são as notas da leitura do livro de contos, Universo Desconstruído, Vol. I, que publiquei nas redes sociais de livros e que considerei valer à pena, apresentar aqui também. Então, vamos à percepção sobre a obra!

Foi um começo interessante. Algumas coisas, eu estranhei e achei sem sentido. Mas nada relacionado à primeira protagonista (que é incrível!) do primeiro conto e, sim, a uma visão regionalista brasileira de algo fora do planeta. E, excetuando a personagem em suas falas, o "a gente" em uma descrição de local ou ação não dá. E café com leite fora da Terra? Onde? rs.

Mas o enredo é bom, ainda que levemente confuso para um conto. Me pareceu mais um fragmento de uma novela sci-fi futura, como uma apresentação. Eu não gostei da finalização abrupta e sequer entendi a abreviação de temas tão sérios em poucos parágrafos.

Provavelmente melhoraria se transformasse este conto em um romance inteiro sobre o assunto, caso se aprofunde nos temas apresentados.

O segundo conto é relevante. Me pergunto se ele, na verdade, fala de robôs ou se sobre a grande maioria dos relacionamentos que temos no mundo real. A dependência emocional pode ser um inibidor mental ao ponto de se viver uma subserviência com outro ser humano.

De qualquer forma, é um futuro distópico e não lógico. Primeiro, porque num futuro em que a humanidade é capaz de criar tais robôs, o nível de tecnologia reprodutiva também seria avançado ao ponto de gerar a não-obrigatoriedade da procriação nos moldes tradicionais.

E, por outro lado, veríamos também a extinção humana, pois somos seres sociais. A proximidade física com outros seres humanos é o que muitas vezes impede o aumento de doenças como ansiedade, depressão e outras mentais, geradas pelo isolamento social. Um mal que, infelizmente, já vemos ocorrer na atualidade por conta do auto-isolamento criado pelas redes sociais. Mas, ainda assim, é pertinente este conto.

Em seguida, mais um conto, o terceiro, que parece um pedaço de algo maior, como um romance de ficção científica.

Já do conto da Aline Valek, eu gostei. Acredito que a percepção sobre robótica, consciência e direitos das mulheres foi mais bem explicitada nele. Vou querer ler mais do que ela produzir. Porém, sem a palavra "ok" em descrições. Não ficou legal.

E no sexto conto, continuam os "trechos de livros". Seria conto, mas não tem a base disso. E a impressão que se tem (também neste conto) é de que são partes de um romance de sci-fi maior.

Por fim, posso dizer que os contos são atraentes, porém, a construção gramatical em todos não é boa. E não falo de erros ortográficos, que são resultado de uma revisão não muito profunda do texto. Falo de orações em que se precisa traduzi-las, literalmente. Isto atrapalha a fluidez do texto. Em alguns momentos cruciais dos enredos, estes problemas retiraram a emoção das cenas. E é exatamente deste tipo de obstáculo que os autores devem se livrar ao criar suas histórias.

Os contos são bem argumentados, mas não entendo porque sempre terminam no momento da mudança. É exatamente no final que se inicia o desfecho das histórias (depois de extensas e, por vezes, cansativas descrições - que em um conto que pede agilidade não seriam absolutamente necessárias), mas... a conclusão ocorre pela metade. Percebi isto quase no fim do livro: os desfechos não fecham por completo as narrativas. Isto seria legal, se não fosse repetido na maioria dos contos.

Às vezes, um gostinho de quero mais é interessante, mas quando vira uma constante de encerramento, é porque há certa falta de criatividade em criar finais distintos. E como este livro foi editado, seria possível perceber estes finais similares e repetitivos. Isto empobrece uma história antes bem amarrada.

No todo, achei o projeto do livro extraordinário. As histórias tem um gancho inicial muito bom, as personagens femininas da maioria geraram uma noção de familiaridade que envolve o leitor. Foi bom perceber as mulheres de todos os tipos sendo retratadas nestes contos como realmente são: humanas (sejam máquinas ou orgânicas).

Infelizmente, em um ou outro texto isto não ocorreu de uma maneira coerente. Bem como escrevi acima, a maioria dos finais não me agradaram por conta da falta de encerramento; ou o plot twist (vindo no fim) ser repetitivo. O costume de dar a um conto uma ideia de que continua em algum plano, para além do que é apresentado ali, no livro, faz o leitor se sentir um pouco enganado.

Contudo, algumas histórias são excelentes. Os erros nas construções de frases persistiu em todas, porém, o conjunto deu para entender. Assim, eu espero que os próximos contos mostrem a evolução da qualidade de criação das autoras e autores.

Eu recomendo a leitura, apesar das críticas para uma boa revisão. Este é um projeto que dificilmente se veria no Brasil e que deve ser apoiado e ensejado a  prosseguir. E espero que mais e mais amantes do mundo da Ficção Científica aproveitem esta revolução em palavras frente ao padrão normativo dos romances de Sci-Fi.


Até a próxima!

O Perigo de Uma História Única - Chimamanda Ngozi Adichie

Este livro é uma adaptação de uma palestra dada pela escritora Chimamanda Ngozi Adichie no TED Talk que já foi assistida milhões de vezes. No começo da fala da autora, ela nos conta sobre suas percepções de mundo quando criança,  em que não se pensava como alguém que teria o "perfil" para fazer parte das histórias que criava, porque os livros que Ngozi lia quando criança eram todos constituídos de personagens diferentes dela. No caso, os personagens eram brancos.

Ainda criança, a autora também descobre que sua percepção sobre a pobreza e sobre as pessoas pobres era incompleta e passível de suposições que não se adequavam a realidade, chegando, diante da descoberta de informações e fatos para além da 'história única' que haviam lhe contado, à seguinte conclusão: quando  estamos na infância,  somos condicionados por 'uma história única', que acaba por gerar uma percepção do mundo não condizente com o que ele realmente é.

Então,  ela nos fala sobre como nós, no Ocidente, também somos condicionados a ter este tipo de percepção sobre a realidade, em que apenas uma 'história única' nos é passada como sendo a "verdadeira". Algo que, na verdade, oculta a pluralidade e diversidade de informações e fatos que existem para além daquela visão fechada e simplista.

Mas Ngozi nos leva a refletir sobre como isto é utilizado. Afinal, as percepções fechadas sobre pessoas, povos e etc. se formam em algum lugar e visam a algum objetivo. O que pode-se traduzir em poder ou na busca por obter isto.

Um ponto interessante que ela mostra e que deve ser levado em consideração é que muitos dos estereótipos e opiniões que temos como "verdades" sobre as pessoas vem desta 'história única'. Por isso, é importante perceber o que existe para além dessa história recontada como a 'única' que nos apresentam e dos estereótipos advindos delas.

Como, por exemplo, ela cita, o que nos contaram no passado sobre o grande continente chamado África: a visão que criaram sobre todo o território e de todos os seus países é equivocada, por ter sido criada uma 'história única' para um gigantesco espaço de terra com nações diferentes, Histórias e Culturas diversas e trajetórias também distintas.

Por isso, a ideia, a construção e a disseminação de 'uma história única' sobre alguém, sobre um povo ou sobre um lugar gera uma desumanização do "objeto" de foco daquela narrativa, pois não permite que criemos empatia e proximidade com o que ficamos sabendo sobre.

Ngozi nos apresenta novos olhares sobre seu país natal que rompem com a 'história única' por humanizar as pessoas de lá e mostrar o quanto são, como ela diz, "iguais a todo mundo". Vivendo no mesmo planeta, acalentando seus sonhos particulares e sobrevivendo, apesar da vida ser difícil para todos.

Quando Ngozi nos fala sobre uma 'história única', ela fala da perda da identidade original que as pessoas têm frente ao mundo e que é substituída por aquilo que interessa a quem cria e mantém versões sobre quem as pessoas são, o que fazem e como vivem. Como um roubo da História Real e um desrespeito à quem somos.

'O Perigo de uma História Única' é uma reflexão em palavras sobre como chegamos a uma sociedade que precisa urgentemente de uma História,  com 'H' maiúsculo, que abarque a todas as demais que foram silenciadas pela 'história única' gerada por quem deseja ter e manter o Poder da Narrativa em suas mãos. 

É um chamado à consciência sobre o quanto nós conhecemos tão pouco sobre os diversos lados de uma questão, de uma História e como necessitamos descobri-los,  jogar luz sobre eles para, enfim, sermos capazes de compreender este mundo que criamos aos "trancos e barrancos".

Foi uma leitura breve mas riquíssima e que deve ser lida por todas e todos.

E termino com uma bela percepção de Chimamanda Ngozi Adichie:

"Quando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca existe uma história única sobre lugar nenhum, reavemos uma espécie de paraíso."

Até a próxima!

As Brigadas Fantasma: Sobre Escolhas e suas Consequências

É impossível falar desta série, Guerra do Velho, sem cair no clichê de descrições como maravilhoso, incrível, empolgante e angustiante, pois cada livro comporta cada um destes adjetivos.
Este, no caso, fala especificamente sobre as Forças Especiais. Seres humanos criados em laboratório apenas para serem usados em batalhas fora do planeta. Eles são mais rápidos, respondem de maneira mais eficiente e eficaz do que as Forcas Coloniais "comuns" e são condicionados desde o nascimento a aceitarem que seus objetivos de vida é defender a humanidade.
Algo que poderia ser explicado a soldados, mas para os que integram as Forças Especiais é um dever.
E imaginar seres humanos ainda que geneticamente melhorados tendo de nascer já adultos e com este dever imposto como norte de vida sem qualquer escolha é a parte que realmente gera angústia.
A estória acompanha o soldado Jared Dirac e toda a confusa que criam em sua vida (a criação dele em si é uma baita confusão!) por esperarem dele duas coisas que ele não escolheu para si. Primeiro, ser um soldado ainda que não sentisse um desejo ou inclinação para a guerra; e o segundo, que ele fatalmente se tornasse um traidor.
E por isso a estória prende a atenção pois nos faz questionar até que ponto um ser humano escolhe algo e quando ele na verdade é condicionado a agir de uma determinada maneira. Seguir os passos de Dirac sem saber quais escolhas ele fará ainda que seja um soldado proibido de escolher (caso sejam escolhas importantes), nos leva a pergunta do que faz uma pessoa trilhar um caminho equivocado. Seria algo inato, a pessoa nasceria para o mal? Ou seria uma combinação de experiências de vida somada a reflexão que se seria capaz de fazer sobre os próximos passos a dar.
E foi isso o que o soldado Dirac mostrou neste livro. E não apenas ele. Também a corajosa tenente Jane Sagan e seu valente pelotão.
Então, excetuando o final, que eu já supunha ter apenas dois caminhos (e eu odiei ambas serem as únicas escolhas do personagem principal masculino), a estória foi, como eu disse acima, brilhante!
Ficção Científica de guerra é algo que não me atrai muito. Eu amo Ficção Científica, mas tenho dificuldades (ou bom senso) em ver qualquer tipo de conflito como "única" solução para quaisquer problema. Porém, a escrita de Scalzi nos leva a perceber todos os lados em relação ao uso da força como maneira de "desbravar novos horizontes". E apesar de sempre mostrar que todas as raças inteligentes disputam territórios destruindo uns aos outros, o autor criou personagens carismáticos que não apenas questionam se "são feitos para estarem em batalha" como também se há lógica nas guerras criadas. E mais ainda, gera a pergunta sobre quem realmente está por detrás da criação destes conflitos.
O livro, na verdade, mostra exatamente o quanto desviamos do mote de sermos humanos para nos tornarmos monstros, apenas pela megalomania ser tão forte que desejamos governar um raça inteira, quem sabe, até mais de uma.

Por isso, 'As Brigadas Fantasma', apesar de eu considerá-lo um livro muito pequeno, vale à pena a leitura.

A Caderneta Vermelha: Entre Anotações e a Nostalgia do Possível


AVISO: Estas notas contêm spoilers do livro!

Isto não é uma resenha!
Ou talvez também o seja.
Mas é mais as notas que sempre gosto de criar enquanto leio um livro.

Enfim, bon appétit!

1. Gostei do gato da menina! Gostei do NOME do gato! Então tive de pesquisar enquanto lia. A raça chama-se Maine Coon e achei impressionante o tamanho do "bichinho".

2. Um dos personagens possui uma livraria e, para mim, isto é uma característica positiva para uma pessoa. É claro que não é uma imediata qualidade, mas ter acesso a tantos livros muda a vida de uma pessoa. Já se ela mudará o mundo usando isto, é uma outra história.

3. A citação de obras e autores encaixou bem nesta narrativa. A vontade que fica é de ler cada um dos livros reais cujos títulos são apresentados. Ou sondar, buscando saber mais sobre as obras dos autores que o personagem livreiro apresenta.

4. Uma coisa que sempre acontece em romances: o personagem principal, um deles, não explica quem realmente é e se mete em encrenca.

5. Então, um personagem supostamente elogia o outro dizendo, "Você parece ser um 'homem de bem'", e é automática a ojeriza ao "elogio". rs

6. O que é a realidade?, me lembra de uma jovem em um livro não terminado de ser escrito que indagou, "O que é real?"

Alguém sabe?

7. A NOSTALGIA DO POSSÍVEL persegue a todos os seres racionais e se mantém como um amigo que sempre nos recorda daquele 'e se', daquela curva, daquela esquina da vida que não dobramos por vários motivos. Responsabilidades, inseguranças, resignações, raiva, medo...

8. Eu achei muito estranho a reação da personagem feminina após o momento traumático de ser assaltada, agredida e ficar em coma. Ela voltou alguns dias depois à sua rotina diária sem qualquer alteração, medo ou inseguranças que perpassam qualquer vítima de uma tentativa de latrocínio. Foi realmente surreal e acredito que o autor foi infeliz em não ter trabalhado melhor este pós-trauma.

E este foi meu único e incomodo 'exceto' neste pequeno livro.

9. É interessante que no final, um personagem venha a agir quase como o outro, em uma "caça ao tesouro" que encerra o ciclo. O livro infelizmente é muito pequeno. Acredito que ele poderia ser mais robusto pois tinha capacidade para tal.

Há muitas obras, incluindo nisto algumas que li, que se tivessem cem páginas seriam o suficiente, pois o nível de tergiversação, com os autores lutando para estender um enredo fraco e insípido, é insuportável.

Mas 'A Caderneta Vermelha' demonstrou que é possível amarrar bem uma pequena história. O livreiro é um personagem verossímil e encantador em suas reflexões e conceitos filosóficos, morais e éticos. Suas dúvidas sobre vida e morte são realmente relevantes, e dificilmente alguém, na idade adulta, não se viu diante dos mesmos questionamentos que ele se faz.

E o restante dos personagens são bons. Poderia ter mais informações sobre eles. Mesmo a personagem feminina que é o tema da primeira "caçada". Ela parece merecer que fosse mais explicitada a sua história e suas ações, para além da caderneta vermelha.

Foi um prazer ler este livro! Ele é bem curto, mas possui qualidade e enredo que prendem quem o lê até a última página.

P.S.: O gato preto é um show à parte!

Olhos D'Água: Notas sobre um Mar de Lágrimas

AVISO: Estas resenha contém spoilers do livro.

Eu nunca havia lido um livro tão pequeno e tão doloroso. Pelo título, Olhos D'Água, eu imaginei que seria sobre a luta e o sofrimento de todo um povo que sobrevive a duras penas neste grande pedaço do território americano, chamado Brasil. Mas é uma dor "instrutiva" a que o livro mostra. Um pouco parecida com um tapa na cara, que dói mas que nos deixa alerta para a realidade à nossa volta.

Há pessoas morrendo, há pessoas morrendo por nada, e há pessoas morrendo pelo nada que se constitui a cultura da exclusão. Os personagens deste livro tem pouco ou nenhum acesso ao que lhes daria, no mínimo, a dignidade de existirem. Eles vivem pelas migalhas de um sistema cruel, que mata e submete até o ponto da insânia de se tomar veneno para se sentir no controle do próprio destino.

A Morte é quem governa estas vidas, nunca a própria Vida. E a cada conto, pode-se perguntar porque é tão difícil ler, como se fosse conosco que acontecesse, o que cada personagem vivencia; que é similar a realidade de alguém que pode estar sentado ao nosso lado, passando pela rua ou sendo deixada/o para trás por nossos passos apressados pela cidade.

Dói quando lemos, porque gera empatia, e ao mesmo tempo, vergonha.

Primeiro a vergonha, porque sempre soubemos que a vida era/é dura para pessoas pobres, pessoas negras, pessoas periféricas. Mas nunca realmente calçamos seus sapatos, ou caminhamos sobre a falta deles, para compreender o inferno que eles vivem a cada dia, a cada hora, a cada minuto.
E segundo, a empatia, que é algo intrínseco ao ser humano. Existe uma luta terrível para que não sejamos empáticos com outras pessoas. A insensibilidade virou sinônimo de força e sucesso. Por isso, é associada a pessoas ricas, que preferem que o abismo entre elas e as mais pobres, ou apenas pobres, se mantenha e se alargue cada vez mais. Porque elas sabem o quanto DÓI sentir EMPATIA. É voltar a ser humano, frágil, vulnerável, como, na verdade, sempre fomos.

Nossos "heróis" míticos são seres superpoderosos, indestrutíveis e quase imortais. Ser, ao contrário disso, apenas um ser humano é ser o oposto da vida imortal e é algo que não combina com nossos desejos de eternidade. Porque sabemos que vamos morrer. Um dia.
E como queremos ludibriar a morte, fugimos da empatia, que nos lembra que a dor existe. Que ela, a Dor, é Vida. Mas também tem prazo de validade. E este livro nos mostra a fragilidade, a vulnerabilidade e a finitude da Vida.

Eu preferia que não fosse um livro tão doloroso, a única palavra para descrevê-lo corretamente e que precisa ser repetida, mas é um mar de lágrimas que nos afoga a cada conto, a cada esquina que se dobra nesta leitura. É para sofrer com a mulher que teve muitos filhos mas quis apenas o último, mesmo sendo um filho de um estupro. Ou a que só deseja que os filhos provem um melão, mas que jamais volta para casa, para eles. Ou a que sonha com um futuro possível longe do marido que a oprime. Ou o rapaz de apenas quinze anos que podia estar em casa mas que acorda com dor de dente, deitado em uma calçada qualquer do mundo.

São muitas as formas de sofrer mostradas neste livro. Todas terríveis. Todas 'dolorosas' como a espetada de um punhal. Mas todas necessárias para enxergarmos o mundo como ele realmente é.

Mas, ainda assim, há um placebo. Na verdade, mais do que apenas um calmante, uma lufada de luz, que é a poesia de Conceição Evaristo. E não se sabe se lemos narrativas ou poemas de dor, porque a autora consegue tecer esta colcha perfeita e nos leva a brincar entre os lábios com suas palavras dispostas "no varal que é a linha" escrita.

Eu aplaudo a competência e brilhantismo de Evaristo em conseguir criar uma obra tão delicada e tão forte.

Meus olhos se tornaram d'água depois de lê-lo.

E, sinceramente eu espero que uma Ayolwa esteja, neste momento, apontando-se pelo caminho, para trazer de volta para todos a alegria que nosso povo tanto necessita. Que ninguém mais seja obrigada/o a "combinar de não morrer" e que haja a paz que faça com que menos mães tenham Olhos D'água como característica e legado para suas filhas e filhos.

Precisamos falar sobre... Ética!

Há muito tempo, eu percebi o quanto seria importante este tema em minha vida. A ética é intrínseca a uma existência saudável, não apenas para si mesma mas também para as pessoas ao nosso redor.

E sinceramente, eu acredito que, desde a tenra idade, deveríamos ter contato com os estudos relacionados a ética. Porque ética é a liberdade de sermos quem somos, de agirmos com consciência (ética) acerca do que é bom e do que é mau, mas também de aceitar que outrem o sejam e o façam. Ainda que não seja exatamente como eu quero mas que esteja eticamente norteado para o Bem. Ou seja, pressupõe respeito pois nos leva a escolher sempre o que é melhor e correto não apenas para nós, mas para todos.

Por isso, apesar de ter trabalhado com o tema na época da graduação, percebi que estava um pouco enferrujada para discutir sobre. E nestes tempos atuais, em que vemos a moral religiosa ou a do dinheiro sendo as únicas utilizadas para balizar os comportamentos (e por conta disso, cerceando e limitando a liberdade de quem não concorda), percebo que, mais do que nunca, precisamos falar sobre Ética.

Assim, decidi trazer algumas resenhas de livros que li sobre o assunto para auxiliar a mim em minhas reflexões e atitudes - pois ética é sobre ação mais do que apenas abstração.
O livro em cheque é 'O que é Ética' de Álvaro L. M. Valls. Como todo bom livro sobre filosofia, este também se inicia falando sobre os filósofos gregos, que, para o mundo ocidental são o repositório máximo do conhecimento neste campo. Bem, sobre o que Valls nos apresenta, estas são as notas da leitura que fiz:



Primeiramente, o que seria Ética. Segundo Álvari Valls, "A ética é daquelas coisas qua todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta. Tradicionalmente ela é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento."


Porém, em meu entendimento, Ética trata da liberdade consciente de agir.


Mas vamos a um resumo de pontos do livro sobre ética e sua História desde a Antiguidade:

1) Segundo Valls, os gregos viveram a mais ou menos 2 mil e 500 anos em sua hélade grega (e ele está certo). Porém, não advêm deste período os registros sobre conduta moral mais antigos, porque o Código de Hamurábi existe desde de o século XVIII a.C. E é o código de normatização de comportamento e de ética mais antigo de que se tem registro.

Por meio desta lei da Mesopotâmia, pode-se perceber a necessidade das normas. Bem como, apesar de não existirem registros anteriores a ele, ter uma base de estudo sobre ética a respeito de um período muito anterior ao dos gregos; que, por sinal, beberam de todo o conhecimento sobre ética do Oriente próximo ao Mediterrâneo e da África mediterrânea.

2) O livro trata da ética sempre sob os registros antigos do Ocidente, focando em Grécia e no Império Romano mas sem a percepção de em quê estes povos antigos (mas não tanto) se basearam.

Como Lavoisier disse: "Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". Ora, se o código de Hamurábi foi baseado na lei de talião e, por sua vez a lei dos hebreus do Deuteronômio foi baseada no de Hamurábi, pode-se precisar que a filosofia e a ética das leis grega e romana beberam, e muito, nas leis não-ocidentais.

3) A norma ética da Idade Média e especificamente deste período NA Europa é utilizada como um passo além no fluxo da filosofia da ética, de acordo com o autor. Contudo, novamente, as palavras do autor são contraditórias porque ele mesmo diz que "não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria, de um povo a outro."

Enquanto na Europa a ética era normatizada pelos dogmas judaico-cristãos do Catolicismo, em outros locais era regida por leis específicas e distintas da primeira. Assim, o livro deveria começar com um prefácio explicando este foco e demonstrando que o estudo do campo da ética AINDA encontra-se em expansão pois não abarca todos "os costumes que variam, (...) os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria, de um povo a outro."

4) "O dever obriga moralmente a consciência moral livre, e a vontade verdadeiramente boa deve agir sempre conforme o dever e por respeito ao dever." A liberdade viria, então, de um senso do fazer o que é correto, porém  apenas surgindo da igualdade entre os seres (livres em si).

A ética estaria acima e para além das leis pois se liga ao pensamento (racional, creio eu) que se forma em uma consciência moral (ética).

5) Ocorre um certo foco da ética ligada apenas a religião ocidental oficial: o judaico-cristã.  O que limita a própria concepção do "o que é ética", pois, apesar de usar de contraponto a religião antiga grega, não vai além disso para falar de ética no Medievo (outro foco reducionista, pois havia florescimento de conhecimento em outras partes do globo terrestre enquanto o continente europeu permanecia focado em penitência e salvação).

6) A moral religiosa foi mais limitadora do que geradora de novas questões que enriquecessem o debate sobre ética. Nisto, acredito, que o livro é um pouco parcial para além do necessário.

7) A citação ao "professor marxista" foi um tanto estranha, visto que o próprio manifesto escrito por Karl Marx vai contra este simplicismo advindo da moral religiosa. Me pareceu pinçado de alguém, no caso o tal professor, com opinião é não argumento válido sobre a questão.

8) Era uma pena que na época em que Álvaro Valls escreveu este livro o trabalho do historiador norte-americano George James ainda não existisse porque ele perceberia que tanto a filosofia grega quanto a moral cristã eram na verdade desdobramento de algo mais antigo.

E para quem interessar, indico o livro: 'Stolen Legacy: The egyptian origins of western philosophy' de George G. M. James.

9) As correntes de pensamentos mais "atuais" que o autor aponta como sendo tendências, na verdade, são as que mais se utilizam hoje para se debater sobre a realidade social atual. Principalmente, a corrente que utiliza o chamado pragmatismo sob o manto do capitalismo.

E neste ponto exato que necessitaria de um capítulo inteiro do livro para mostrar a ética e o que se costuma chamar disso mas que, em um debate sobre, se perceberia que  são argumentos vazios. E este debate, que acredito, faria sentido para a criação desta obra. Pois uniria o conhecimento do passado com os desdobramentos que vemos sobre ética no presente.

10) Um ponto que mostra novamente certa parcialidade, pois não valoriza, o não considera que existem valores éticos, morais advindos de outra culturas - e mesmo do Oriente -, para além dos valores das religiões abraâmicas. E quando o autor explica que "Kierkegaard considerava que uma ética puramente humana, depois do cristianismo, não deixava de ser um retorno ao PAGANISMO, no seio de uma cristandade não mais cristã. A única vantagem que haveria, talvez, para um tal esforço, seria, na perspectiva do homem de fé, a obtenção de uma linguagem comum, aceitável também pelos homens que não possuem a mesma fé. O que, para Kierkegaard, era uma vantagem ainda duvidosa(?)", pode-se indagar:

Uma ética que respeite até mesmo religião não abraâmicas e mesmo o ateísmo seria duvidosa para quem?

Este livro é mais religioso do que marxista, como me disseram que supostamente ele o era.

11) A ética no livro é completamente embasada na visão sobre o assunto sob as obras de pensadores europeus. O que delimita o tema, pois o motivo, por exemplo, de eu aprofundar meu (raso) conhecimento sobre ética, adveio de um livro sobre ética escrito por um monge budista. Provavelmente o tema ética também era caro para outras religiões e povos para além da Europa mesmo na chamada Antiguidade ou no Medieval europeu.

Mas não sabemos como era, porque mesmo os filósofos contemporâneos focam seus estudos apenas sobre os pensadores europeus.

O que é decepcionante.

12) "Assim, hoje em dia, os grandes problemas éticos se encontram nestes três momentos da eticidade (família, sociedade civil e Estado), e uma ética concreta não pode ignorá-los." Valls está corretíssimo em apontar estes três âmbitos.

13) "A liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um Estado livre e de direito. As leis, a Constituição, as declarações de direitos, a definição dos poderes, a divisão destes poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais. Ninguém é livre, numa ditadura; a velha lição de Hegel se confirmou até os nossos dias." Nada mais atual do que este pensamento hegeliana.

Foi uma leitura interessante. Porém, como disse acima, limitadora. No caso, nos primeiros capítulos. Falar sobre ética sem perceber que somos uma sociedade ocidental normatizada por regras que se mantém desde a Idade Média é no minha alienalizante. A ética precisa estar além da religião ou dos costumes de apenas um povo. Porque, ao contrário do que
Kierkegaard pensava, eciste vida pensante para além das religiões. E, mais do que isto, a fé é algo particular. Enquanto a ética deveria ser universal.

Os últimos capítulos deste livro demonstraram um conhecimento brilhante sobre a filosofia e a ética atuais que me fizeram querer aprofundar mais os estudos sobre o tema.

Então, eu recomendo a leitura deste livro pelos capítulos finais. Os outros, vai do conhecimento de cada um sobre História Antiga: se conforme o discurso padrão, porém cheio de lacunas, ou se pela perspectiva dos historiadores atuais que andam rompendo com a História oficial e quebrando paradigmas sobre temas como filosofia.

E não paremos aqui. 

Até a próxima!

Janeiro em Livros

Porque minha Meta de leitura, em 2018, é LER!

Neste novo ano, me prontifiquei a ler pelo prazer, sem estipular limites ambiciosos a ultrapassar e nem competir mentalmente para ler o mesmo número de páginas que bookaholics alucinados.

Mais que quantidade, este ano será um ano da busca pela qualidade da leitura, e da vida.


Janeiro 

Este primeiro mês do ano me surpreendeu. Em geral, eu começo tão devagar que apenas "engreno" em leituras lá para setembro. Mas, incrivelmente, terminei 2017 lendo livros que me empolgaram a continuar. Terminei alguns que estive lendo nos últimos anos, à conta gotas, e encontrei uma pérolas cativante que já faz parte do rol dos meus livros favoritos.

Mas falemos das leituras!


Perfume da Paixão, Jude Deveraux (ebook)

Então, comecei a ler este livro no final de 2017. Li no máximo duas páginas e decidi recomeçá-lo depois das festas de fim de ano. Foi o que fiz, mas a história no me prendeu. Uma sinopse que prometia mas que não passou disso. A história se arrasta, os personagens são chatos e estereotipados e ainda tenho dificuldade em não rir da diferença entre o português do Brasil e o de Portugal. Enfim, a autora tentou criar um romance água-com-açúcar misturados aos de espionagem e mistério. O mistério era chato, o mocinho, tedioso, e a mocinha cansativa. Podia mais, mas depois das dez primeiras páginas, eu decidi ler o livro todo por pura teimosia, porque a história é um desperdício de cérebro e papel, que estariam melhor se tivessem sido mantido como parte das árvores.
Foi uma leitura sofrega e que eu nem em sonho recomendaria.


Nota: 0,3/5


E como recomendaram este novo livro da autora queridinha do romance de banca, Julia Quinn!
Lançamento de 2017, ele parecia romper com a série de livros da família "Von Trapp", do qual, li alguns e apenas agradei de um. Mas voltando ao livro, a sinopse falava de espiões da coroa inglesa, à serviço de sua majestade, que trabalhavam contra colegas de profissão franceses na época das guerras napoleônicas.
Isto para mim, não foi um chamariz; foi quase que hipnose.
Porque eu amo pesquisar sobre a época destas guerras e a influência que teve, direta ou indireta, pelo resto do Globo. Até mesmo o Brasil foi "vítima" destas guerras já que, por conta de uma certa batalha entre ingleses e franceses, a família real portuguesa desabou aqui, em Pindorama. E isto é um fato histórico que um contarei de maneira mais completa.
E, mais uma vez, voltando ao livro, esqueçam de Napoleão Bonaparte, esqueçam tudo o que já leram/assistiram sobre espionagem, traição e morte na ficção. James Bond não descende dos espiões deste livro e acredito que seu criador deve estar estrebuchando no túmulo por Quinn zombar tanto do trabalho de espionagem.
Em geral, eu leio as notas dela ao final do livro para encontrar alguma lógica no que serviu para ela de inspiração. Mas neste livro, eu desisti. É um livro patético pela fraqueza da história - e, mais uma vez, de seus personagens parecidíssimos, sai livro, entra livro -, e que não conseguiu unir os dois motes que destacavam na sinopse - uma sinopse pode engrandecer ou matar um livro.
A mocinha parece ter um leve retardo mental (e eu não estou brincando quanto a isto!) e o mocinho parece um adulto que esqueceu de amadurecer.
Deu pena do livro. Vai ganhar uma nota pelo esforço que Julia Quinn teve em romper com a família Von Trapp.

Nota: 0,5/5



Comprei este livro ano passado e enrolei, desde então, para lê-lo. Apesar de ser um livro de ficção científica e do tamanho diminuto, não evoluí rápido na leitura quanto em Frankestein, que, por sinal, li em uma tarde. A história é interessante, a ideia do uso de substâncias que alterariam um organismo e mesmo a personalidade de um ser humano é digno de nota porque a história foi escrita no século XIX. Uma época que, apesar a revolução industrial estar a todo vapor (me desculpem o trocadilho!), estávamos a um século de distância de entendermos um pouco mais profundamente a questão das múltiplas identidades em um mesmo ser. Ou seja, é um livro digno de nota por estar à frente de seu tempo. Mas é só. O relato focando no advogado é massante. O "mistério" sobre o médico - e o monstro - não envolve. E, sinceramente, não senti pena ou senso de justiça com o final. Que na verdade, foi superficial e dava espaço para mais desdobramento.
Acredito que Stevenson escreveu de maneira mais envolvente sobre piratas.


Nota: 3/5



Eu tenho montes de livros sobre Cabul no Afeganistão, mas nunca me empenhei, de verdade, em ler um deles porque a única coisa em que penso é no sofrimento dos afegãos, invadidos e despojados de suas vidas a cada vez que alguém decide "salvá-los do inimigo". Que, na verdade, nem sempre é do povo do país, mas sim do invasor ou criado pelo mesmo.
Mas me arrisquei com este livro e me encantei em olhar aquele povo sofrido como também belo e rico de histórias.
O livro conta a história de cinco mulheres que tem os caminhos cruzados pelo destino. Fala de seus sofrimentos, lutas e anseios e mostra, ainda que pouco o quanto mulheres são o mesmo que nada em um mundo machista.
O final é justo; e seria melhor se o fosse para cada mulher real que lá se encontra cada Jamila encarcerada, torturada e maltratada que espera por justiça e liberdade de ser quem é.
É um livro que dói mas que mostra o quanto o povo afegão vive e segue sob a esperança.
Oxalá, ELAS e eles a obtenham um dia.


Nota: 5/5



Wyvern, o Dragão Alado, A. A. Attanasio (livro)


Nossa, a quanto tempo eu estou lendo este livro!
Para mim, se tornou um livro para a vida. Acho que comecei a lê-lo a mais de dez anos, mas sempre me segurei para terminá-lo porque é muito bom. Este ano, eu decidi que precisa dar um desfecho a esta leitura e o coloquei em minha meta pessoal e o terminei em um piscar de olhos. E olha que é um calhamaço daqueles!
Mas Wyvern tem os elementos de que mais gosto na literatura: aventura, misticismo, ciências e História... É um leque de temas agrada a todos os amantes do mundo dos livros. Cada página, cada capítulo é uma nova descoberta. Até o Brasil e o sofrimento dos africanos sequestrados e trazidos à força para cá é tema.
Gosto da percepção do protagonista sobre os tais avanços civilizatórios do Ocidente que, na verdade, não passam de justificativa para invadir e pilhar. É triste o quanto ele percebe que seria melhor se o mundo permanecesse como o estado em que viviam o seu povo originário. Mas, infelizmente, como em um livro, não dá para alterar suas história depois de escrita e lançada no mundo.

Wyvern é um livro que me marcou e que eu recomendo.


Nota: 5/5



Walden, Henry David Thoreau (ebook)

 "... se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se
esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras. Há de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. A medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão vosso trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo."

E assim se encerra minha aventura acompanhando Henry David Thoreau. Jamais imaginei que terminaria este livro, porque eu não queria terminá-lo. Ler pequenos trechos dele ao longo dos últimos anos era como viajar para um lugar tranquilo e onde a natureza era real em comparação à capital do Estado em que vivo. E este lugar de paz era o lago Walden.

Porém, como Thoreau bem lembrou se verdadeiramente se quer desbravar o mundo, primeiro deve fazer algo simples: Conhecer a si mesmo.

Foi com enorme prazer que li a última página e percebi que valera a pena.

Walden é um lugar que se tornou atemporal; ao menos o lago Walden que Thoreau visitou, que não é mais o mesmo que existe no presente. E, para ele, eu convido a todos que desejam aventurar-se para além deste mundo moderno e frenético em que vivemos.




Nota: 5/5




Então, estas foram as leituras deste primeiro mês do ano. Estou gostando muito da falta de pressão que coloquei em mim para ler e acredito que esta deva ser a maneira que devemos seguir para que os livros nos satisfaçam de maneira prazerosa.


Até a próxima!

Sangue na Neve - Lisa Gardner





Quando comecei a ler este livro, me lembrei na hora dos romances de Kathy Reichs (autora de livros e também da série Bones) e de Jeffery Deaver (do livro e filme O Colecionador de Ossos, entre outros). Li mais os livros dele do que os dela, mas sei que ambos são ótimos em criar personagens profundos e envolventes, enredos instigantes e desfechos completamente imprevisíveis.
Acreditei que Lisa Gardner vinha da mesma cepa...
Não foi assim.
A autora publicava romances na linha dos tão conhecidos romances de banca e decidiu passar para os policiais, cheios de descrições sobre como morrer violentamente. Era para ser algo de qualidade, já que ela foca bastante em descrever os detalhes de corpos em estados variados de putrefação ou não. Algo que poderia se considerar, digamos, primoroso exatamente na linha de Reichs e Deaver. Quem já leu algum livros deles sabe do que falo.
Porém, são descrições técnicas demais, longos trechos focados nisso. E, apesar de eu achar a história interessante, para mim, não houve tantas reviravoltas, já que dava para saber, antes do meio da história, quem eram os vilões.
Outra coisa foi a personagem mala da história. Não era a protagonista e foi decepcionantemente retratada. Uma mulher grávida não é chata. Uma policial correta e obstinada não é repetitiva. Mas D.D. foi.
As evidências na cara dela e ela mantendo-se teimosamente contra qualquer instinto para além do óbvio que se mostrava. Me fez, ao final do livro, não querer ler a série em que a personagem é protagonista.
Depois de Temperance Brennan e Amelia Sachs (e de outra que não digo por ser spoiler demais), fica difícil ver uma personagem que podia mais mas se mostrou aquém do que se esperava.
O resto não fugiu à linha de romances policiais. Muita morte, sangue, pistas, pistas e um final que quase foi óbvio para mim.
Não me envolveu. Prometia e eu esperava mais. Não mais corpos ou descrições dos mesmos, mas, por ser uma autora de romances policiais, criando um livro em que duas mulheres se digladiam até o fim, poderia ter algo de diferente, algo singular para prender a atenção para além das descrições de cadáveres. Eu prefiro as dos livros da Reichs.
De qualquer forma, a personagem principal foi quase perfeita e isto valeu a leitura. Eu gostaria de ler mais sobre ela (sem a mala da D.D.) em uma série de livros, mas nem sempre conseguimos o que desejamos.
De qualquer forma, achei que a autora foi muito feliz nas partes relacionadas ao trabalho policial; detestei aquela mudança de voz, passando de primeira para terceira pessoa de acordo com os capítulos pois não qualifica um texto agir assim; e acredito que Tess Gerritsen foi mais bem sucedida, passando dos romances da Harlequin Books para os policiais, do que Gardner.
Sei que não foi o primeiro livro de Gardner e já li autores que melhoraram sua escrita com o passar do tempo. James Rollins foi um que passou de um livro descritivo medíocre para uma narrativa envolvente como um todo nos outros. Espero que isto tenha ocorrido com a mórbida Gardner.

Um abraço e até a próxima!